Depois de escrever o texto Apropriação Cultural: dois pesos e duas medidas surgiram uma sequência de ideias e questionamentos, consequências dos acontecimentos que venho relatando. É uma série de ideias que eu tinha em mente, que estou esboçando em formato de textos para entender o que me afeta nesse caos social. Essa tem sido a minha terapia.

Recapitulando, falei no texto anterior sobre a pressão que o negro sofre em falar e se desenvolver através da sua cultura. Do preconceito com o negro, do rótulo de ser inferior ou de que as artes da sua cultura sejam ruins. Esses preconceitos criam barreira sociais como se o negro fosse apenas um ser braçal e que um ser braçal tenha menos valor que um intelectual.

Essa imagem de que a pessoa que faz o trabalho braçal é inferior a quem tem as grandes ideias é mais uma das teorias infundadas herdadas do sistema escravista.

Uma pessoa que tem uma ideia de um produto só será bem sucedida se ela colocar essa ideia em pratica, se ela criar um produto, certo? Uma ideia é apenas uma ideia, pura imaginação. Uma teoria sem pratica é algo sem valor. É preciso existir um produto para venda.

Então, por que quem tem a ideia e quem cria não ganham a mesma coisa? Na minha opinião esse é um dos motivos do desiquilíbrio social, se o ganho não é compartilhado de forma justa é impossível ter um ambiente justo.

Continuaremos vivendo no cenário onde os ricos estão sempre ricos e os pobres cada vez mais pobres. Pela simples ideia de que quem tem dinheiro detém o poder e não quem produz.

Percebo isso através do meu trabalho de artesã crocheteira, que é um trabalho de design. E que é considerado um trabalhinho qualquer, o que é grandioso, a criação de uma peça manual e única. Só porque eu não sou rica e famosa? Se eu colocar uma etiqueta com uma marca poderei cobrar um valor maior? O valor está na criação da peça ou na marca?

Quem determina e valida as compras de produtos? Os consumidores. Quem são os consumidores? Somos nós, o povo, o cidadão. Qual é a maneira que decidimos nossas compras? Cada pessoa tem uma maneira de valorizar e priorizar a sua compra. Pela qualidade do produto? Por uma empresa ética e preocupada com sustentabilidade? Pelo valor financeiro ou social? Pelas celebridades que representam ou gostam da marca?

Esses questionamentos são necessários, e também, um canal de solução para avaliação do atual quadro social. Ao mesmo tempo que somos consumidores, também podemos ser funcionários e não ser valorizado pelo que fazemos. Como já disse em outros posts, é um círculo vicioso opressivo, onde podemos ser opressor e/ou oprimido.

Veja na minha postagem Crochetando: atendendo ao pedido de uma cliente como desenvolvi uma peça, eu sei que existem crocheteiras melhores do que eu, mas, sei o valor e tempo que gasto para produzir cada peça.

Sempre gostei de trabalhar com artes, em suas variadas formas: dança, crochê, canto, escrita, dramatizar cenas. Ouvi, várias vezes, que isso não era algo que eu deveria pensar em seguir como carreira. Afinal, não tem pessoas na minha família que trilharam esse caminho, porque são atividades consideradas como luxo e não são “profissionais”. Sempre ouvi que arte é pura brincadeira, como se não tivesse poder comercial.

Como nunca consegui colocar meu interesse artístico em primeiro plano, segui trabalhando em outras áreas. E como diversão, quando posso, me envolvo em trabalhos artísticos. Mas, nunca consegui me dedicar somente nessas áreas. Financeiramente, é impossível. Quando estou trabalhando fixo não tenho condições produzir peças de crochê suficiente pra viver só dessa renda, quando paro de trabalhar não tenho dinheiro pra investir. Parece uma dança de rato.

As variadas formas de artes é uma fonte de desenvolvimento pessoal e profissional. E uma maneira de descobrir o que gostamos de fazer de uma forma lúdica. Por exemplo, o teatro colabora muito para desenvolvermos a empatia e a curiosidade de estar no lugar do outro. E de repente perceber que nossas crenças e pré-conceitos são realmente desnecessários e injustos, ou reforçar o que gostamos e acreditamos.

Afinal, todos nós temos ideias pré-concebidas sobre alguns temas que nunca vivenciamos e é esse comportamento que pode nos tornar preconceituosos e racistas. Para alguns assumir isso é complicado, mas, queiramos ou não, é a realidade do lado maldoso do ser humano. O que não deixa de ser bom até o momento que isso gera uma crítica construtiva e mantem-se no campo do diálogo.

Tudo o que está acontecendo em nossa sociedade está interligado.

O negro não tem sua cultura fortalecida, logo os negros não se desenvolvem não se identificam com o universo branco, as metodologias europeias. Todas as civilizações se desenvolveram através da sua arte e cultura. O negro teve a sua cultura considerada como algo errado, como representação maligna.

Em contra partida, a cultura negra influenciou outras culturas. Muitas culturas se reinventaram através d dança, da culinária e da moda africana, sem incluir a imagem do negro, a presença de negros. Esse é o problema da desigualdade social, esse é o problema da apropriação cultural.

E consertar esse erro histórico é algo que deve ser feito com a colaboração de todos. O negro descobrir sua missão e buscar o máximo se desenvolver. O que vai gerar muitos choques, mas, são necessários. E do outro lado, as pessoas preconceituosas reverem seus conceitos e não continuarem difamando por tradição.

Hoje, consigo acreditar que a solução da minha vida está nas minhas mãos. E é óbvio que o preço dessa liberdade é alto, porque junto a minha determinação de criar meu espaço estarei rompendo com padrões e vão me chamar de briguenta (como já fui chamada), de quem quer mais do que merece, vão criar uma série de rótulos que não me pertencem.

Chego a conclusão de que para superar o racismo e outros tipos de preconceito precisamos nos olhar como iguais, precisamos fundamentar nossas críticas e não apenas compartilhar palpites. A injustiça vivida pelos negros escravizados trouxe consequências na atualidade para todos os cidadãos. Claro que de formas e com pesos bem diferentes, dependendo da cor da pele. Todos estão subjugados a algo ou alguém. Muitas vezes obrigados e muitos outros por suas próprias escolhas.

Buscar entender movimentos como #FashionRevolution na área da moda e avaliar como decidir suas compras: valorizando a qualidade do produto e como ele feito, colabora para mantermos a sociedade um ambiente economicamente saudável.

Que criemos conceitos sem gerar preconceito, é um jogo complicado, que acredito ser possível. Se cada um focar mais em se realizar do que avaliar o outro teremos espaço pra todos. Começo acreditar que a Moda em poucos anos será algo demodê. E começaremos a falar de Estilo, e estilo cada um cria o seu. Sonhando com a quebra de padrões… sonho meu!

Beijos de luz,
Michelle Cruz
Se a luz não iluminar seu caminho que, pelo menos, fulmine as ideias ruis.