A conta gotas, sigo contando algumas experiências que passei com relação ao preconceito. O assunto parece não ter fim e como estou numa busca de ressignificar tudo que já passei, compartilhar se tornou uma forma de cura.

Voltando a falar sobre situações cotidianas que carregam preconceito e bloqueiam a vida de quem quer apenas ser feliz da maneira que é, escrevi o texto Apropriação Cultural em maio desse ano, volto a falar do assunto com outra experiência.

Reclamar que há injustiças sem pautar os motivos, sem descrever a situação parece que não tem valor. Então, lá vai mais um dos meus desabafos…

Quando eu tinha por volta de 14 anos, minha tia me deu uma caixa cheia de miçangas coloridas e me ensinou a fazer colares e pulseiras. Fiquei maravilhada com a brincadeira, pra quem me acompanha já sabe que adoro artes em todas as formas.

Essa minha tia, já é falecida, frequentava o espiritismo. E eu? A cristã evangélica. Eu nunca tive nenhum bloqueio para conviver com a minha tia, nós tínhamos a ligação de sangue e o talento com as artes, que não dava tempo para criar barreiras com a questão da religião.

tia marli (2)
Minha tia artista (irmã do meu pai) e eu

Quando ela me deu a caixa de miçangas e me ensinou a fazer as peças foi mágico. Eu tinha ganhado um presente pra vida toda. Existe algo mais valioso do que conhecimento de uma técnica transmitido por uma tia super dedicada e carinhosa?Ah, e linda também! Desculpa quem pensa ao contrário, não tem! Fico orgulhosa ao falar dessa tia.

Tenho uma saudade imensa dela, das conversas e todos os momentos que ela esteve ao meu lado. Gratidão sem tamanho, é com essas pessoas que aprendemos a valorizar o que realmente importa nessa vida. Ela foi uma das mulheres mais guerreiras que eu conheci.

Mas, como nem tudo são flores, tem sempre uma parte da história que não é tão boa. Eu fui pra igreja que eu frequentava com minhas pulseiras feitas com miçangas. E adivinha o que aconteceu? O pastor falou que era material de macumba, pertences espíritas e eu tinha que jogar fora.

As miçangas coloridas são usadas nas guias e colares na umbanda. Mas, esses materiais não são propriedade de nenhuma cultura. As miçangas poderão ser usadas com outros propósitos, depende do que cada um quer fazer com esses materiais.

Analisando a situação, agora me diga, pode isso meu povo? Pode isso Arnaldo? É normal fazer isso com uma adolescente que ganhou um presente da tia que ela ama?

Pois bem, eu chorando, super chateada voltei pra casa e joguei tudo fora. Segundo o pastor, eu estava usando coisas do diabo e traria maldição pra minha vida. Eu era muito nova e nem sempre tinha coragem ou argumentos para rebater as regras religiosas.

Letter Love SA
Zulu Love Letter – bandeira da África do Sul

Se já não bastasse ter jogado tudo fora, eu ter ficado muito mal com a situação, acabei me afastando da minha tia por um tempo pra não contar pra ela o que tinha acontecido. E pra finalizar, alguns meses depois, as meninas da minha igreja começaram a usar pulseiras com miçanga. Foi uma febre de pulseiras com florzinhas de miçanga e estavam vendendo em todos os lugares.

Eu fiquei em choque na época e comecei a falar que era errado elas usarem, contei a história que o pastor contou. E simplesmente me disseram que eu tinha que parar de ver coisas onde não tinham. Que eu deveria apenas orar pra Deus abençoar e usar.

Esse é um exemplo de como a apropriação cultural funciona nos nossos dias, uma pessoa negra quer fazer arte e é rotulada de macumbeira, “ela faz coisas do mal”. Como se ela estivesse fazendo algo ruim. Mas, quando uma marca famosa ou pessoas brancas usam não existe problema, é legitimado como algo bom e que todos devem usar.

Dá pra entender porque o racismo é responsabilidade de todos? Porque é uma causa dos brasileiros e não só dos negros. Quando alguém critica algo sem conhecer profundamente e sem saber o real objetivo pode estar condenando uma vida e seu desenvolvimento.

Como já comentei em outras postagens, não sou mais frequentadora de igrejas cristãs, tenho questionamentos sobre como alguns Homens que lideraram/lideram a fé cristã conduzem seus irmãos atualmente.

Quando leio a Bíblia consigo ter aprendizados com as minhas leituras e muitas respostas para meu crescimento espiritual. Mas, na convivência com alguns cristãos parece que não funciona da mesma maneira. E aos 36 anos não posso mais gastar meu tempo debatendo quem está certo, preciso fazer o que é certo pra mim.

O nome dessa atitude, da minha postura, hoje é maturidade

 

Maturidade

Percebo hoje que é muito importante criar minhas regras de convivência, uma delas é de evitar relacionamento com quem não entendem minhas raízes, que distorcem minha realidade. Não estou nem falando das minhas verdades. É realidade que sofro com o racismo, eu poderia dizer que todo mundo é racista, isso seria considerada a minha verdade. Eu não posso generalizar, nem tudo é racismo nesse mundo.

Se eu estiver errada em alguma decisão, vou colher as consequências dessas atitudes. Se eu estiver errada, conforme o que acredito, Deus vai me mostrar, a circunstâncias da vida vão me levar ao que é correto. Não pode alguém que não conhece minha história ditar o que é melhor pra mim.

Ao longo da história do Brasil, os negros não puderam viver de forma a falar de si, de sua cultura. E isso se repete atualmente de forma sútil, atingindo todo aquele que é diferente.

Sobre seguir a religião, não aconselho ninguém a abandonar ou crítico todas as igrejas, porque fiz amigos queridos nesse meio. Só que hoje eu tenho outro caminho pra trilhar. Pessoalmente, não vejo coerência em ficar num ambiente que me fez viver momentos ruins e que na história mundial abafou o valor de uma das minhas raízes. Se houvesse um reconhecimento dentro das igrejas, o tal do arrependimento, de que houveram erros e é preciso termos novas ações, eu poderia conviver. Sem esse reconhecimento é opressor conviver.

Eu não consigo levantar a bandeira de que tem que aceitar os negros a todo custo, porque eu tenho outras influências culturais. Mas, não aceito que mais ninguém me diga o que eu posso ou não posso fazer. O que é ou não do diabo.

Como disse o padre Fábio de Melo “Cada um tem que exorcizar seu próprio diabo”. E não querer criar diabo na vida dos outros.

Enquanto eu for rotulada de macumbeira, não sendo, querendo criar minha arte porque é o que eu gosto e tem relação com as minhas raízes, o racismo persiste. Enquanto grandes marcas lucram com a venda de produtos com referência de culturas marginalizadas e esses povos não conseguem crescer financeiramente por preconceito social, continuamos vivendo num ambiente injusto. É por isso que todos fazem parte da melhoria, não é uma questão de quem é vítima ser forte e correr atrás do que quer.

Gostar ou não gostar de algo ou alguém é direito de todos, rotular e difamar não é direito, é desrespeito com o outro que tem uma história e precisa ser feliz a maneira dela.

Como mulher da pele negra, com origem indígena, africana e portuguesa – eu tenho direito ao meu espaço no mundo sem ser rotulada e difamada. Se estamos num estado democrático eu não deveria estar falando disso, como se eu estivesse pedindo reconhecimento, eu deveria ser respeitada.

O que nos falta não é reconhecimento é respeito com o espaço do outro.

Por esse e outros motivos que criei o blog, persisto, insisto e resisto em falar do assunto. Na esperança de, um dia, “mudar o disco”… rs… falar de outros assuntos e criar novos ambientes. Levantar essa causa nesse momento é uma questão de sobrevivência e não uma luta para eternidade. Afinal, nada é eterno, nem as coisas boas e nem as ruins.

 

Beijos de luz,
Michelle Cruz
Se a luz não iluminar seu caminho que, pelo menos, fulmine as ideias ruins.