No final do mês de abril, escrevi o texto Racismo não é mimimi, relatando algumas experiências desagradáveis que passei. Situações que relato hoje na tentativa de alertar e nenhuma de requer justiça.

E é sobre ter justiça que quero falar hoje. Eu gostaria de que as pessoas percebessem naturalmente quando são inconvenientes e injustas. Mas, infelizmente, não é assim que funciona.

Como eu já disse no texto Racismo não é mimimi, a maioria das pessoas que foram preconceituosas comigo estavam próximas, são pessoas que eu admiro, tenho conexão emocional.

Uma das maiores dificuldades de perceber e confrontar o preconceito é por não querer arrumar confusão ou discutir. E na maioria das vezes, a pessoa que tinha a atitude preconceituosa tinha mais poder do que eu, financeiro ou social (título ou mais velha).

É difícil colocar na parede alguém com quem se tem laços de amizade, sanguíneo ou hierárquico. Porque, culturalmente, dirão que sou uma ingrata ou falsa, por expor algo errado que tenha acontecido entre mim e o agressor. Pelo menos foi o que eu ouvi de uma pessoa quando desabafei o que tinha ocorrido. Essa certa pessoa me disse que eu deveria apenas entregar pra Deus e não confrontar. É difícil calar a dor, é difícil ignorar pressão ou injustiça. Mas, fiz isso por muito tempo.

Percebo que errei várias vezes, porque quando tentei ignorar a situação injusta o “carrasco” não ficou consciente de seus péssimos hábitos. E isso fez com que se torna-se comum.

Quando vejo desabafos pela internet sobre casos de injustiça ficou extremamente chocada. Porque existe um bando de juízes virtuais que escracham quem erra como se a pessoa fosse um erro. E ninguém é um erro, somos passíveis de erros. Existem os que querem insistir no erro? Existem. Vou deixar os extremistas de lado. Não vejo necessidade de desmoralizar alguém por atos que ela possa vir a se arrepender e corrigir.

Fica mais difícil para uma pessoa assumir seus erros quando ela é pressionada e ameaçada. Um juiz condenando um criminoso e o obrigando a pagar uma pena, é correto. Se nós tomamos o papel da justiça isso não é justo, isso é ser justiceiro, o que não é justo.

Fico muito revoltada e chateada toda vez que vejo uma situação de injustiça. É horrível. E por me sentir mal sendo pressionada que não consigo ficar feliz em ver uma pessoa sendo agredida mesmo ela sendo errada. Temos que ter limites para punição.

É uma questão simples de pensar que eu não sou perfeita, eu cometo erros. Hoje alguém erra comigo. Amanhã, eu posso errar com alguém. Antes de ser julgada por uma multidão, gostaria de ser alertada do meu erro. E não julgada por milhões de pessoas que nem conhecem a minha realidade.

É claro que com as pessoas que adoram errar e não querem mudar de atitude melhor ação é tomar distância. Não dá pra ficar perdoando quem não quer ser perdoado.

Outro texto que escrevi e que me toca ao falar nesse assunto de preconceito é o texto Sabedoria Africana, que falo da maneira em que os africanos da tribo Zulu tratam seus semelhantes quando cometem erros. Eles buscam falar coisas boas dessas pessoas pra lembra-las que elas não são a maldade, mas, sim que comentem erros e podem melhorar.

Alguns assuntos nos fazem girar em círculos. Eu reclamo que fui vítima de racismo e sei que é péssimo ser hostilizado na frente de todo mundo. Fico chateada com o que fizeram comigo, mas, não a ponto de querer revidar. De fazer o outro passar o que eu passei.

Se a cultura africana fizesse parte da cultura brasileira nos livros e na cultura diária, talvez, não teríamos o tema racismo com tanto destaque.

Temos muito o que aprender uns com os outros. Persisto, resisto e sigo falando do tema porque eu quero viver melhor. Com o alvo de um dia não falar mais de racismo. Porque eu sou descendente de negros, índios e portugueses. Não tenho como defender um só grupo faço parte de outros também. A verdade, o melhor da vida, a coerência não se detém na mão de nenhuma etnia.

Que possamos pensar mais nos nossos interesses em comum do que nas nossas individualidades.

Um canal de TV da Dinamarca fez um vídeo que vale a pena compartilhar. As vezes, acreditamos que somos diferentes uns dos outros e no fundo somos mais parecidos do puderíamos imaginar. Quem vê cara não vê coração, diz o ditado, e nem entende de sentimentos. Temos que ser mais do que os rótulos que nos colocam e que muitas vezes “vestimos”.

Hoje eu sou vítima de um preconceito que reina há anos nesse país. E tenho consciência de que pessoas diferentes de mim sofrem também por outros motivos. Sofrem até com o próprio racismo, escrevi sobre esse tema também Racismo: escravidão moral vigente. Não é só o negro que sofre com isso, existem brancos nas favelas com dificuldades de melhorar de vida. Atingi muito mais pessoas do que percebemos.

Pensar em justiça, nas minhas causas, faz pensar nos outros também. Porque sonho com um país realmente democrático. Hoje, termino esse texto embargada. Porque certos assuntos me fazem relembrar coisas desagradáveis. Que infelizmente fizeram parte da minha vida.

Quem me dera ter a chance de eliminar com uma varinha mágica tudo o que me fez mal. Plim plim salabim, quero esquecer tudo que fizeram de mal mim e que eu tenha uma história de vida sem preconceito! Já tentei, não funciona… rs… tenho que fazer piadinhas, né? um dos meus lemas é rir pra não chorar… as vezes, minhas piadas são tão sem graças que os amigos riem porque são amigos… rs! E também, porque sou dona de várias “caras e bocas” cheia de gracinha… só vendo pra entender o meu drama.

Encerrando… o que separa vítimas de carrascos é apenas um passo: agredir, seja qual for o motivo. É um círculo que precisa ser quebrado.

Só posso dizer que eu não quero viver nessa prisão emocional. Continuo com a minha assinatura, que alguns consideram infantil, e eu um mantra necessário…

Beijos de luz,
Michelle Cruz
Se a luz não iluminar o seu caminho que, pelo menos, fulmine as ideias ruins.