(Imagem: Vogue Brasil – Divulgação) Ensaio Carmem Miranda Reloaded da edição Fevereiro 2013 da revista Vogue.

Vamos falar de apropriação de cultura? Algo bem complexo, na minha opinião. Como delimitar a apropriação de cultura? Como separar o ‘devido’ do ‘indevido’? Considero algo quase impossível de se resolver discutindo o assunto.

Se estamos num mundo onde buscamos fazer o que nos faz bem e consideramos bom e agradável ao gosto pessoal, qualquer pessoa pode se apropriar da cultura que achar cabível ou não?

O ponto crucial dessa questão com relação ao negro, o episódio do turbante, da dança africana, da música africana, do cabelo cacheado ou crespo natural, de toda estética negra, tudo gira em torno da questão do preconceito com o negro. “Porque um branco fazer uso da simbologia africana não é nenhum problema”.

O problema é… quando um negro decide usar turbante e é chamado de macumbeiro, e nem sempre é. Quando acham que qualquer apresentação negra pode ser um modelo de negócio para explorar a cultura e não incluir o negro na produção desse trabalho.

Vou dar um exemplo da questão. Eu trabalho com crochê e faço colares com sementes ou pedras. Eu sou cristã, não frequento nenhuma religião de matriz africana. E uma certa vez, fui vender minhas peças em um salão de cabeleireiro. Um dos funcionários falou “Lá vem ela vendendo os patuás”. Eu não consagro nada meu pra nenhum santo, não tenho nada contra a quem o faz. Não é problema meu, mas ser rotulado de algo que não faço… ah! Não dá, né? Eu assisti esse tipo de cena muitas, muitas, muitas, muitas vezes. Eu quero ser vítima não? Mas, sempre tem um carrasco querendo se apresentar.

Só que com esse indivíduo eu decidi rebater, rebatendo com um argumento preconceituoso e desnecessário. Ele é gay. E eu disse “bom… eu sou cristã, não faço patuás. Agora, vou ser sincera também, eu achei que você fosse gay, mas estou vendo que você é homem mesmo”. Fiz questão de fazer um comentário pra ver se chocava como o que ele fez comigo. Ele ficou sem graça e dando uma risadinha amarela.

A minha regra nesses casos é a pessoa não tem empatia naturalmente, ajude-a. Preconceito inverso nunca existirá, mas é preciso fazer ‘gracinha’ pra tentar colocar o indivíduo no lugar. Foi o que eu fiz. Se ele não gosta de ser rotulado eu também não gosto.

E as mesmas  tipos de peças que eu estava vendendo estavam sendo vendidas em lojas do shopping, em marcas de sucesso, em suas campanhas publicitárias não tinham modelos negras. E esse é o problemas, um negro quando vai vender seu produto vira piada, quando está na campanha de uma marca famosa é o luxo e a pessoa de pele negra não está na imagem. Com isso temos a evidência de que a cultura negra é usada comercialmente e não valoriza seu povo. Situação ‘pra inglês ver’.

A solução pra isso é evidenciar o que é bom e não criticar o que consideramos ruim. Uma regra pra todos, pra quem olha o produto do outro e pra quem vê no outro e não acha certo. Cada um se dedica no que a acredita e alcance o sucesso que deseja.

Com essa ideia de exaltar o que consideramos bom, acredito que os negros devem exaltar cada vez mais a cultura negra, criar negócios que incluam a cultura e valorizar as modelos e os profissionais na área. Não existe essa de proibir as pessoas de usarem ou perder tempo discutindo.

E vamos desabafar também, sem dar nomes, a ação das pessoas preconceituosas. E quem tem o costume de fazer piada com a vida dos outros que faça com a própria vida. Porque zoar o outro é fácil, quero ver é se divertir sozinho. Povo triste! Não tem alegria com a própria companhia.

E outra experiência que quero evidenciar sobre cultura é que eu fiz balé dos 5 aos 15 anos, cresci ouvindo música clássica e jazz. Não sou uma super conhecedora dessas artes, mas gosto. Ao ponto de gostar mais de música clássica do que pagodinho.

Quando falo que tenho preferências mais comuns ao gosto europeu algumas pessoas falam que eu quero parecer branca, como se tivesse um tipo certo de vida para ser uma mulher negra. De uma forma sútil o negro que faz atividades que mais comum pessoas brancas fazerem são rotuladas. Nunca se falou em apropriação cultural de outras etnias porque a tradição e a cultura sempre impediu.

Eu tenho consciência de que muitas pessoas não percebem o preconceito que elas geram, porque é algo que faz parte da cultura do país, crescemos sem muitos negros na TV, os vendo fazer papel de serviçal, rotulando a mulher de cabelo liso como linda e elegante, imaginando que todo rico fala calmamente e se comporta de forma rebuscada. Como se o inverso dessas ações fosse ‘coisa de preto’… ‘serviço de preto’ e ruim!

Somos a sociedade dos diferentes e cada com as suas verdades e mentiras, onde todo mundo quer ser livre, ter direito de fazer o que quer e ainda quer ser respeitado. Esquecendo que com tanta adversidade é preciso seguir regras, isso incluir entender seus direitos e deveres. Sem entender o que é ética e moral no ambiente onde estamos vamos continuar vivendo esse caos social que está o Brasil.

Vou sempre repetir a questão do racismo é responsabilidade de todos os brasileiros, não apenas dos negros. A injustiça do passado criou o cenário atual que crucifica muitas pessoas, com diferentes intensidades, mas todo mundo sofre de alguma forma.

Quando acham que os negros enxergam preconceito em tudo é que na verdade esse país foi moldado humilhando o negro. E realmente existe preconceito e exclusão do negro em quase tudo. O que pesa é  que o negro hoje tem voz pra dizer isso que está sendo afetado. O que prova que o dia 13 de maio, que representa o fim da escravidão, não foi o fim.

As pessoas que criticam não mentem de ser um saco ouvir críticas dos negros. É reclamação ter que ouvir reclamação. Eu também não gosto, mas, antes de não gostar de reclamação com fundamento, eu não gosto de injustiça. É de bom senso respeitar o espaço do  outro se quero que respeite o meu. Precisamos ter regras sociais de convivência.

Se não houver correção do erro vamos continuar uma história toda errada e injustiça. E essa fase que estamos vivendo, a de correções. Dói, não é fácil, precisamos dialogar mais até que possamos entender os limites e criar ambientes mais agradáveis a todos.

Quando se referem se aos negros como escravos e esquecem de evidenciar que existiam carrascos é sinal de que não entendem o peso da situação. Afinal, se um negro é a lembrança de um escravo, poderíamos dizer que os brancos são a lembrança dos carrascos. Pesado, né? É a realidade. Os brancos de hoje tem culpa do que foi feito no passado? Não, mas muitos cresceram privilegiados.

Quando vamos falar de apropriação cultural não é apenas um ponto a ser discutido, por exemplo, o uso do turbante. É falar de como a tradição e a cultura social ainda molda de forma injusta a vida de todos.

Um bom dia!

Beijos de luz,
Michelle Cruz
Se a luz não iluminar seu caminho que, pelo menos, fulmine as ideias ruins.