Nasci num lar cristão católico e depois dos 15 anos de idade comecei a frequentar igrejas evangélicas até que depois dos 25 anos eu me adaptei e me classifico como cristã protestante. Pra ser sincera, hoje, aos 35 anos esses títulos não estão fazendo diferença. Entendo que ser cristã é uma ação, seguir os passos de Cristo e não apenas dizer que sou cristã ‘bla bla bla’ e pregar ou agir de maneira totalmente inversa.

Eu sempre fui uma pessoa muito observadora e questionadora. Então, passei a maior parte da minha vida sendo rotulada como a garota geniosa e teimosa. Porque não aceitava tudo o que me era imposto.

Quando me diziam que a mulher tem que ser submissa eu ficava horrorizada. E discutia com as lideranças da igreja e em casa também que a forma que eles falavam e agiam diante do tema era errada.

Entendo que em um relacionamento de casal exista submissão, de ambos os lados. Essa não é a forma que muitos leitores da Bíblia interpretam. Sem contar, a minha dúvida em saber se a tradução da Bíblia que temos está usando realmente os termos que nos baseamos.

Graças ao autor Frederico Lourenço a Bíblia toda foi traduzida para o português, estou curiosa para ler, para tirar as minhas dúvidas. Ele é um dos autores confirmados na FLIP 2017, que acontece de 26 a 30 de julho, em Paraty. Ele concedeu uma entrevista ao site Globo sobre seus novos lançamentos. Leia o artigo.

Voltando a questão abordada nesse texto… sobre distorções no meio cristão…

Na Bíblia NVI (Nova Versão Internacional), o texto em que as lideranças cristãs enfatizam sobre a submissão da mulher, no livro de Efésios 5, o texto inicia enviando uma mensagem para todos – homens e mulheres:

“1 Portanto, sejam imitadores de Deus, como filhos amados, 2 e vivam em amor, como também Cristo nos amou e se entregou por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus.”

Sendo assim, o texto não deveria ser sempre lembrado como o texto que diz que a mulher deve ser submissa. É o texto que diz que os filhos amados, TODOS os que acreditam na Bíblia devem ser imitadores de Cristo. E ser imitador de Cristo é não humilhar, é não ser deus na vida de ninguém, é ajudar as pessoas.

É cumprir as palavras de Jesus como está em Marcos 12: 30-31:

“30 Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças. 31 O segundo é este: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo. Não existe mandamento maior do que estes.”

Interpretando o que é dito no texto de Marcos, primeiro precisamos nos amar, dar ordem na nossa vida antes de querer amar e dar ordem na vida dos outros. E isso serve para homens e mulheres, para todos!

Até esse momento a Bíblia prega Igualdade entre as pessoas. Todos devem viver buscando o bem para si e para os outros.

E mesmo quando corre o texto e chega na parte em que se enquadram a questão da submissão, que na verdade são os deveres conjugais, deveres de ambos. Continuamos falando sobre deveres iguais para marido e mulher.

Eu sempre rebati dentro das igrejas a questão da submissão ser em relação ao deveres conjugais e não a uma solteira, porque escutei diversos evangélicos querendo me fazer acreditar que eu deveria ser submissa aos homens. Que dentro da minha casa eu deveria ser submissa ao meu pai e ao meu irmão. Com pessoas que eu deveria ter uma relação de respeito. E não de eu ser subjugada a eles. O que me rendeu a fama de rebelde.

Em Efésios 5: 22 – 27 aparece a mulher diante de uma relação matrimonial e que ela deve se sujeitar ao marido. O uso da palavra submissa se altera conforme a versão de tradução, as vezes, é usado obedeça ou se sujeite. Mesmo sem a tradução meu entendimento dessa parte não é de anulação da mulher.

“22 Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, 23 pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos. 

“Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável.

Quando leio essas partes do texto que diz que a mulher deve se sujeitar ao seu marido vejo como um compromisso de casal. Como uma forma de criar uma ordem familiar. Querendo ou não a ordem social se mantém pela existência de regra. E dentro de um matrimônio é isso que acaba acontecendo. É um fato que isso vem sendo imposto por muitas gerações? É. Que tem gerado conflitos a algumas pessoas? Sim. Mas, conheço pessoas que conseguiram viver esses moldes, de ser uma mulher do lar e o homem trabalhar e deram certo.

Se todos temos o direito de seguir o que queremos, precisamos respeitar quem opta pelos moldes bíblicos. Se a mulher é consciente e faz por ser sua vontade.

A mulher não deve casar para servir o homem, para ser uma escrava. Após o versículo que diz que ela deve se sujeitar, no versículo 25, diz que o homem tem responsabilidades com a mulher. O que não dá ao homem o direito de fazer desmedidamente o que quer com a mulher. E mostra que a união do matrimônio é responsabilidade de ambos os lados.

Diante do cenário de assédios morais e físicos na nossa sociedade, coloco em pauta como é importante a liderança religiosa saber o que prega. O que compartilha com milhares de fieis pode colaborar com cultura distorcida do que está na Bíblia.

Se pertencemos a uma nação baseada nas leis da igreja, nossas leis tiveram bases na Bíblia temos que analisar e reorganizar a vida diante da mesma. Se hoje a sociedade se encontra cheia de problemas é de se imaginar que algo foi feito de errado no meio do caminho.

A liderança cristã que não reconhece os seus erros como Instituição está colaborando com o caos social que vivemos. E não adianta falar que o que estamos vivendo são momentos que lemos em Apocalipse porque não é! Estamos vivendo o reflexo das ideias e atitudes deturpadas de gerações passadas e atuais que seguem com o mesmo discurso e atitudes.

É bíblico que devemos viver como a Lei do lugar, mas se não conhecemos o lugar, não conhecemos nossa história, como vamos mudar? Impossível, né?

Muitas pessoas estão na busca do resgate de suas origens para encontrar respostas para o seu futuro. Particularmente, como mulher negra tenho incógnitas que no meio cristão evangélico nunca tive respostas. Porque o negro foi excluído dessa história. E sempre fui aconselhada a orar e não ficar questionando.

Já faz, pelo menos, 3 anos que não frequento igreja, não entro em uma estrutura física, mas não consigo descredibilizar a Bíblia e deixar de acreditar, de considerar a história de Jesus exemplar e motivadora.

Mas, me fez correr atrás de respostas mais concretas sobre as histórias que me fizeram chegar aqui e onde posso chegar. Estou fazendo um curso sobre o Continente Africano e isso tem me dado pequenas descobertas que me faz perceber que a estrutura da igreja e a leitura da Bíblia isolada não me darão caminhos satisfatórios.

O cristianismo chegou na África antes mesmo das missões colonizadoras. Afinal, se a gente olhar no mapa, coisa simples, a história cristã teve seu berço no Continente Africano. A região da Síria sempre foi um cenário de guerra. Área onde as religiões monoteístas tem como referência de suas filosofias.

Ainda não me sinto preparada para discursar sobre outros fatos históricos, quem sabe no futuro… no momento, me sinto mais feliz em trilhar um caminho com mais respostas coerentes, mesmo longe da vivência igrejeira. Ter Deus no coração é um ato que independe de lugar e com quem estou. Eu sou o que eu escolhi ser e sou por atitude, não por título ou aprovação de alguém.

Podem me rotular de rebelde o quanto quiserem, se os que me rotularam realmente acreditam na Bíblia, um dia darão conta do que inventaram. A Deus pertence a ignorância alheia. É claro, que a insistência terrena me permite entrar com processo por calúnia e difamação. E faço esse cometário porque eu já tive que enfrentar certos cristãos fofoqueiros com esse argumento.

Dizer que alguém é ruim por não concordar sobre religião não dá o direito de rotular ou difamar ninguém.

Basta de viver de imagem ou condutas impostas por lideres que não estão repassando o que é verdadeiro e motivador. Cuidado com as falsas inspirações divinas, que no tema mulher, colabora e muito com o fortalecimento do assédio moral e físico nos lares brasileiros.

Beijos de luz,
Michelle Cruz
Se a luz não iluminar seu caminho que, pelo menos, fulmine as ideias ruins.