‘Mimimi’ é o que muitos nunca sentiram na pele e ACHAM que tem argumentos pra dizer que a minha dor não tem valor e razão de existir. Esse é um texto de desabafo… rs! Estou lavando a alma nos últimos dias. Na verdade, é a posição de uma pessoa cansada de tanta hipocrisia de pessoas que me fizeram experimentar emoções extremas. Alegrias e tristezas.

É terrível dizer isso, mas, as pessoas mais preconceituosas que conheci estiveram ao meu lado. Foram pessoas próximas. Pessoas que deveriam me apoiar sempre, #sqn… são pessoas que em certos momentos me fizeram muito feliz e em outros me mostraram um outro lado que me tirou o chão.

Eu não desejo mal a ninguém, mas, porém, por todavia, entretanto, tem muita gente dizendo que racismo é ‘mimimi’ de negro. E eu gostaria que eles tivessem a oportunidade de viver algumas coisas que vivi. Pra aprender a diferenciar “mimimi” de atos injustos.

Quando escuto alguém falando ‘mimimi’ é como se estivesse me chamando sem argumento e em desespero, meu nome é Michelle. Meus amigos me chamam de ‘Mi’… então, quando começam com ‘mimimi’ (falando que racismo é ‘mimimi’), já fico incomodada. E já lasco uma resposta simpática “Para de me chamar sem argumento!”. Ainda mais, porque tenho fama de mulher de personalidade forte. É entre piadinhas e respostas diretas que vou superando e criando limites. Meu corpo, minhas regras… e regras eu realmente tenho.

Depois que li o texto 8 sinais de que você tem uma personalidade forte que pode assustar algumas pessoas, eu endossei o que eu já havia percebido das interações com outras pessoas. Vale a pena ler o texto…

É estranho como algumas pessoas gostam de avaliar as outras. E quando é um negro já vem com rótulos… ah, eu sei bem como é, nem sempre o negro tem uma imagem boa, mesmo ele tendo uma boa conduta. E quando o assunto sou eu a confusão está armada. Quando me olham, acham que sou bonitinha, porque eu sou modelo. E daí, deduzem “ela é burra”. Imaginam que eu não sei me posicionar sobre muitos assuntos. E quando começam a conviver comigo e percebem que eu tenho opinião, o que também chamam de personalidade forte e geniosa, pira a cabeça de algumas pessoas. Alguns gostam e me elogiam e outros querem fazer da minha vida um inferno.

Já ouvi várias vezes “Você não acha que quer muito?” ou “Você não sabe o seu lugar?”. Porque dizem que sonho muito pra uma negra. Mas, não moramos num país democrático? Onde todos tem o direito de ser o que quer? Basta estudar e lutar pelo que quer? Não, basta! A verdade é essa! E posso não ser a melhor pessoa nas áreas que me formei, só que eu posso afirmar que sou boa! É audácia dizer isso? Pode ser! Mas, depois de tudo que escutei e o tanto que subestimaram a minha capacidade eu preciso dizer isso.

Diante desse cenário que descrevi, posso afirmar que o misto de racismo e o negro de personalidade forte é o high level do desespero. Ter opinião e ser proativo deveria ser bem visto e não rotulados como uma pessoa ruim.

Se questionar minhas ex-chefias e amigos, provavelmente, vão dizer que eu sou “a caxias” do grupo, que sempre se preocupava em fazer tudo certinho. Vão dizer que tenho personalidade forte, diferente de ser mal educada.

Certa vez, uma pessoa me acusou de ser uma péssima profissional diante de um chefe. E perguntei o que era ser ruim, o individuo disse que eu sempre queria fazer as coisas do meu jeito, tudo certinho. E que ninguém era obrigado aquilo. Alguém rotular a outra de algo ruim não define que ela é ruim. O que define são os atos e não a imagem, deveria ser assim. Esse é um caso de ‘mimimi’ que considero hilário. A pessoa reclamar que eu sou ruim se ela é ruim. Se na verdade ela não gosta de seguir regras. Com essas experiências comecei a entender que julgar alguém é definir a si mesmo. O coleguinha não estava falando de mim, estava falando dele mesmo. Ele era ruim.

Quando o chefe é sensível ao grupo que trabalha logo resolve a questão e não deixa uma fofoca virar um caos. Mas, quando é alguém despreparado ajuda a situação a ficar pior. Detalhes…

Lá vai algumas experiências que tive, pra se colocarem no meu lugar e dizer que a minha vida foi fácil, pra querem me dizer que é ‘mimimi’ de negra…

Durante a faculdade, diante de cem alunos, eu estava entre os dez alunos que estagiavam em Relações Públicas, porque é quase impossível conseguir um bom estágio. É um presente de Deus para QUALQUER estudante estagiar com profissionais da área sem ser rotulado como apenas um organizador de festa e conhecer um pouco da atuação estratégica. Bom… ouvir uma coleguinha da faculdade dizer “Nossa, mas logo você conseguiu a vaga de estagiária? A que menos tem condições de frequentar um ambiente corporativo como o daquela empresa… você sabe, né? Todo mundo é muito chique lá”. Pobre tem que andar em lugar de pobre, nada de misturar com as outras pessoas. E eu não nasci na pobreza, hein? Eu sou uma pessoa que sempre levou a vida regrada e não tinha grana pra esbanjar. E levava fama de pobre e inferior.

Maldita cultura que não dá chance de mudar sua história e que consideram o preconceito dos outros um problema que eu arrumo na minha cabeça.

Cor da pele e condições financeiras não devem ser critérios de preocupação para quem quer realizar seus sonhos. Certo? Deveria ser. A minha sorte é que o grupo de seleção da empresa era ótima e a coleguinha de classe não era uma das selecionadoras, senão… ah, tava ferrada!

Você acha que não tem mais histórias? Vou contar a última pra não escrever um livro.

Imagine. Você trabalhando com um grupo de sete a dez pessoas, com perfis bem diversos em todos os sentidos. E eu era nova no ambiente, me esforçando pra cumprir minhas obrigações, sendo simpática, pró ativa e prestativa. Tentando fazer amigos. Todos no ambiente estavam me avaliando. Pra ajudar tinha câmeras com áudio em todos os cantos da sala.

Primeiro momento desagradável nesse cenário. Um dos coleguinhas de trabalho, falou num tom irônico “o que está fazendo aqui negrinha? Você não é bem vinda”. Detalhe, essa pessoa é homossexual, um ser que sofre preconceito direto e reto. O que esse ser tem na cabeça? Só Deus sabe…

Segunda experiência no mesmo trabalho, outro coleguinha do trabalho me acusou de roubar dinheiro do caixa, mas, ninguém falou comigo no dia que sumiu e nem nos dias seguintes. Decidiram manter em segredo. Percebi que o tratamento estava estranho e não entendi. Falei com meus superiores e ninguém falava nada. Diziam que eu trabalhava bem e que continuasse fazendo a minha parte.

Quando eu sai da empresa eu fiz uma denúncia no RH sobre tudo que aconteceu comigo, falei que deveriam assistir as imagens da área onde trabalhei, deveriam ouvir o que me falavam. E acredito que eles ficaram cientes dos acontecimentos. Só que eu já estava vivendo as consequências do erro dos outros. Em buscar de uma nova vaga, explicar o desligamento na próxima entrevista, é complicado você ter que reorganizar a vida sem planejar. As consequências do preconceito, das falsas acusações nunca são colocadas na balança.

Ninguém nunca me falou do dinheiro que sumi. Mas, alguns anos depois que sai da empresa, um dos chefes veio conversar comigo e disse que não foi responsável pela minha demissão. E que a garota falou mal de mim, mas, não deu detalhes. Eu fiquei pasma, como as pessoas podem condenar as outras e deixar que o tempo coloque as coisas no lugar? Nada muda se a gente não muda, se a gente não corrigi. O ex-chefe veio me dizer que achou errado e em nenhum momento que eu estava lá falou em minha defesa. O que adianta falar que não gosta de injustiça e não fazer o que é justo? Não existe milagre para essas situações.

O gasto com terapias foram altos, quem pagou as contas? Eu e não quem me casou problemas.

Por isso que eu digo que eu só perdoo quem se arrepende, essa conversa de perdoar as pessoas que erram só porque tem coração bom é uma forma de se ferrar. O agressor nunca fica consciente do seu erro e não se responsabiliza em corrigir, quando é possível, claro!

Eu queria ver a empresa e o ser que me acusou assumir na frente de todos que erraram. Quando se joga pena ao vento é difícil recolher. Mas, nenhuma empresa vai esclarecer uma situação que pode denegrir a imagem da sua instituição. Uma pessoa pode ser castigada injustamente, mas, a imagem de uma corporação não. Isso é justo, né?

E o outro ser abençoado que me chamou de negrinha, acabei o encontrando num shopping e fiz questão de cumprimentar. Ele ficou em desespero, ele tremia de me ver. Parecia que ele sabia do peso da brincadeira dele fez.

Por muito tempo, fiquei com medo de pessoas preconceituosas até que aprendi a encara-las. E ser quem sou, sem o rótulo que quiseram me colocar. Não é porque me acham inferior que eu vou abaixar a cabeça. Faço questão de conviver com preconceituosos pra que coloquem o ranço pra fora ou entendam que estão errados. Meu lema é resistência até o último limite. Prefiro resolver as coisas sem conflito, só que é impossível nesses casos.

Foram tantas experiências desagradáveis que passei que pra alguém me humilhar dizendo que sou uma negrinha de cabelo ruim não é suficiente pra me rebaixar. Eu realmente sei o que é empoderamento. Se sou competente quem tenta me humilhar dessa maneira só pode ser um ignorante. Eu não sou o problema, quem tenta me humilhar é o problemático.

E hoje sou obrigada a agradecer a TODAS as pessoas que tentaram me calar porque elas me ajudaram a moldar essa personalidade forte. Se alguém não gostam da minha personalidade não me culpem, culpem quem me ensinou a ser mais forte: os preconceituosos e injustos.

‘Mimimi’ é quando você nunca experimentou ou vivenciou algo e fica dando opinião sem argumento ou fundamento. Da dor do outro eu posso ser empática ou me calar, mas querer opinar é sinal de ignorância, é posição de uma pessoa injusta.

Provar que ocorre preconceito, que as pessoas são racistas é complicado. Eu não posso mudar o discurso das pessoas. Mas, elas também não podem provar que eu sou qualquer negrinha, que eu sou uma coitada sem condições de assumir posições melhores. Vão dizer que sou audaciosa, mas, estou nos meus direitos.

Quando eu passava por essas situações eu dizia que queria participar de um ‘reality show’, queria que tivesse câmeras gravando as situações, queria que todos vissem o que acontece quando pessoas preconceituosas estão lidando comigo. Assim eu iria descobrir se eu sou o problema ou não.

A vida nos dá lições que muitos nunca saberão ou entenderão, basta que eu saber o valor de tudo isso. E eu valorizo. Brincar com certos assuntos comigo pode não ser diversão pra todos.

Se for racista não desça no play comigo… não vim a passeio… é só um aviso.

Beijos de luz,
Michelle Cruz
Se a luz não iluminar o seu caminho que, pelo menos, fulmine as ideias ruins.