E no dito país da democracia, onde a igualdade social de acesso a educação e a todos os serviços públicos é direito de todos cidadãos, mas, apenas uma pequena porção da nossa sociedade tem usufruído de seus direitos, tivemos mais uma cena do que é a justiça vindo a galope de mula. Mesmo que seja apenas reconhecimento social.

Uma mulher negra que poderia ser reconhecida como escritora de carreira se a ela tivessem dado a oportunidade, é sempre apresentada como a favelada ex-catadora de lixo que decidiu escrever um livro. Uma representação de mulher ousada, por romper o preconceito e limitações sociais . Um exemplo de que para contar uma “boa” história, nem sempre, é preciso ser um doutor das letras.

Talvez se ela tivesse acesso aos seus direitos nunca teria morado numa favela e não seria catadora de lixo. Poderia até ser uma catadora de recicláveis ou catadora de materiais orgânicos. Afinal, pela condição de consumo sem medida, pensar em formas de reaproveitamento não é uma oportunidade de gente pobre, e sim, de preocupação ecológica.

É com esses pequenos detalhes que fico impressionada como os termos mudam conforme a cor e as condições financeiras do individuo em foco. A valorização e desvalorização está na forma em que relatamos as histórias.

Durante o evento em homenagem a Carolina Maria de Jesus, na Academia Carioca de letras, o professor de literatura Ivan Cavalcante Proença disse que o livro da negra não deveria ser considerado literatura.

A atriz e escritora Elisa Lucinda que estava no evento fez um textão no facebook, vale a pena a leitura – A grande gafe eurocêntrica ou O desrespeito à Carolina de Jesus na casa da palavra ou Isso não vai ficar assim. Ela diz que se o livro de Carolina não pode ser considerado literatura outros livros também não são, como os de Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector.

Temos muito o que aprender e aceitar sobre o que é democracia e direito de todos, sobre sermos iguais socialmente, eu diria ao querido professor que…

Opinião: cada um tem a sua… Sr. Dr. Ivan, sou grata pela sua opinião, o livro de Carolina Maria de Jesus faz parte da literatura brasileira. Ela já foi reconhecida. O senhor tem o direito de dar a sua opinião desnecessária, como também, a obrigação de aceitar que a negra favela, ex-catadora de lixo e escritora pertence a mesma classe que o senhor: ironia do destino! Quando que alguém “inferior” poderia ser considerado “igual”? Agora pode! E isso é Igualdade, bem vindo ao país democrático.

Sempre digo… Ninguém é obrigado a nada, mas não tem direito a tudo. Estou amando essas inversões e reconhecimentos sociais. É de lavar a alma como negra e mulher.

Os negros sempre tiveram representantes, pessoas exemplares, o único problemas é que eles nunca foram reconhecidos. O negro tem história. E é por isso que mantenho meu blog porque eu não quero representantes #EuMeRrepresento.

Beijos de luz,
Michelle Cruz
Se a luz não iluminar seu caminho que, pelo menos, fulmine as ideias ruins.

Imagem: Carta Capital