O orgulho é um sentimento ambíguo, pode levar as pessoas aos extremos de suas atitudes, aflorando diversos tipos de sentimentos bons e ruins. Sentimentos que podem mudar de uma hora para outra. Que podem selar amizades ou até destruí-las. E tudo isso pode acontecer da noite para o dia, pode mudar a história de várias pessoas em questão de horas. Basta alguém olhar somente para si e esquecer do bem comum a todos.

Vemos isso no futebol, um esporte que une milhões de pessoas nos estádios. Os times entram em campo pela competição, por um ato saudável, em busca de conquistas. Os torcedores os apoiam, como uma grande família incentivando seus queridos jogadores na conquista de novos títulos. É uma equipe buscando a conquista para uma nação.

Infelizmente, nem sempre encontramos pessoas equilibradas em clima amistoso num jogo de futebol, existem aqueles que querem distorcer o verdadeiro valor de uma disputa, tornando-a em um massacre. Levando ao extremo o orgulho pelo seu time e tornando o estádio em uma arena de gladiadores. O que não deveria ser comum. Mas, existe o extremo do orgulho que pode contagiar e machucar. Nem todo mundo consegue superar frustrações sem criar agressões. Por diversas vezes, os estádios de futebol foram palco de grandes brigas e mortes, tudo em nome de representar e defender um time. Por orgulho a uma camisa.

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Foto: Daniel Isaia/Agência Brasil

E quando pensamos que já vimos de tudo é melhor não duvidar de que possa haver algo pior, como foi o triste evento que ocorreu na Arena Condá. O velório dos jogadores e integrantes da comissão técnica do time Chapecoense, e de alguns jornalistas que também estavam no voo da Lamia. Os corpos foram recebidos em uma cerimônia solene que lembra o término de uma guerra. O impacto do acidente foi enorme e comoveu o mundo. O Chapecoense pode ser considerado, hoje, o time com mais torcedores, pois pessoas de diversos países se compadeceram em oração e enviando algum tipo de ajuda para o time e os familiares.

Situações como a desse acidente nos dá a sensação de que tudo está perdido, muitas vidas foram interrompidas, de um dia para o outro, deixando incógnitas de como será o futuro. E fica a pergunta no ar, por que acontece esse tipo de situação com pessoas inocentes? E o pior é que não temos respostas concretas que expliquem esses tipos de situação. É como se vivêssemos em uma guerra com adversários invisíveis.

E quando se fala em um adversário invisível, demoramos para acreditar que nossos sentimentos possam ser nossos adversários. Como acreditar que nós temos atitudes ruins? Como confessar que erramos? Afinal, assumir erros é motivo pra ser recriminado socialmente. O orgulho nem sempre é um sentimento que honra com boas atitudes.

Foram tantos depoimentos nas redes sociais e noticiários sobre o orgulho ao time do Chape e dos demais envolvidos no acidente, que a sensação é que a dor é interminável. Um depoimento que nem teve muito destaque nos noticiários, mas que nos faz parar pra refletir, foi da mãe do jornalista corintiano Lilácio Pereira Jr. (também morto no acidente), ela disse que durante o tempo em que o filho trabalhou em Chapecó, ele vestiu a camisa verde para tirar uma foto. O amor e o carinho que ele sentiu ao conviver com o pessoal do Chape não o fez desistir do Corinthians, mas abriu espaço pra admirar e viver o momento que ele esteve no sul. O que nos faz perceber que precisamos conviver mais uns com os outros antes de afirmar que apenas o que acreditamos e fazemos é a única melhor opção do mundo.

E outro lado do orgulho nesse trágico evento foi o posicionamento do despachante e do piloto da Lamia. Pelo que foi transmitido nos noticiários, os dois tiveram a chance de deixar o orgulho de lado e evitar as consequências dos erros que estavam cometendo. O despachante foi alertado que as informações do plano de voo não eram coerentes. O piloto sabendo da real situação da aeronave não reportou para a torre de controle aéreo com rapidez. O medo e o orgulho de não serem considerados errados pregou uma peça das mais maldosas. E levou a vida de 71 pessoas. Se fosse eu ou você no lugar deles, o que faríamos? A resposta parece óbvia, mas parece que não é tão fácil de ser respondida. Quando está em risco perder um emprego ou levar a empresa a falência quem tem coragem de perder tudo para não ser difamado socialmente?

Se estamos em um ambiente que não condiz com a nossa filosofia de vida, por que continuar?
Nem sempre é fácil mudar de emprego ou se afastar das situações que conflitam com uma maneira ética de solucionar as dificuldades. Mas, diante de divergências se afastar deve ser uma das opções a serem tomadas.

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As investigações ainda não terminaram, ainda não foi encontrado o culpado ou os culpados. Mas, quando é que vamos deixar de ser acusadores-condenadores? Fala-se tanto que errar é humano, por que não aceitamos os erros dos outros? Não falo isso para proteger os culpados. Mas, para pensar em como estamos agindo socialmente e criando barreiras para que danos maiores não ocorram. Todos que cometem algum tipo de erro precisam de alguma forma consertar, reparar os danos causados. Mas, diante da pressão ou ameaças fica mais complicado de quem errou assumir seus erros.

O que é importante para nós que assistimos essa tragédia é o que realmente aprendemos com tudo isso. Será que somos motivo de orgulho na comunidade onde vivemos a ponto das pessoas se unirem para comemorar e lutar juntos por um ideal? Ou será que estamos tão ocupados olhando para o nosso próprio umbigo que não importa o mal que causemos aos outros, vamos fazer o que é melhor apenas para o nosso “eu”?

Estamos todos em foco na Arena do Orgulho, muitos anônimos, como se ninguém os tivesse vendo. Mas, a questão é, mesmo numa função aparentemente esquecida na sociedade temos a responsabilidade de fazer o nosso melhor, agir individualmente para cumprir cada um a sua parte para formar o coletivo.

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Cada um de nós é uma parte desse enorme quebra-cabeça de soluções para o nosso mundo. Precisamos ser o motivo de orgulho que uni pessoas. Esse é um bom momento para fazer uso da <a href=”http://obviousmag.org/inconvencional/2015/05/viver-e-aprender-e-dar-se.html&#8221; target=”_blank” rel=”nofollow”>Sabedoria Africana</a>, dizendo <em><strong>Sawabona Shikoba</strong></em>, que quer dizer <strong>Eu te respeito, eu te valorizo. Você é importante pra mim</strong>. Um dos atos mais difíceis para uma pessoa orgulhosa é perdoar e pedir perdão. Talvez, seja momento de refletirmos sobre esse assunto e perceber se estamos agindo de forma a unir as pessoas ou causar mais desgraças. Devemos deixar para Deus e os órgãos competentes a função de condenar e cobrar a justiça dos culpados. Afinal, justiceiros não fazem justiça só causam mais degradação social.

Que o orgulho não seja o sentimento que nos faz ser individualistas, e sim, que incentive a união.

 

 

Texto primeiramente publicado no site Obvious – http://obviousmag.org/inconvencional/2016/12/arena-orgulho.html