Toda campanha de esclarecimento com relação aos direitos da criança e adolescente é necessário. Pois, por mais incrível que pareça, existem pessoas que não tem a mínima noção do limite de seus poderes. Muitas vezes, algumas pessoas agem por pura ignorância, por ignorar o fato de que bater em uma criança, mesmo sendo filho delas, não é uma forma adequada de tratar um ser humano. Essas agressões podem deixar marcas físicas e psicológicas que, talvez, nunca sejam curadas.

É importante que se faça as campanhas de alerta, mas é incoerente o Governo não tomar ações mais efetivas no combate a violência infantil. Do que adianta alertas e denúncias sem oferecer qualidade de vida e tratamento para que os agressores reconheçam suas fragilidades, reconheçam o real motivo de suas atitudes. Como sempre, o mal nunca se é tratado pela raiz.

Geralmente, o agressor tem a sua versão do porque agir daquela maneira. A maioria dos casos de agressão que eu conheci, os agressores faziam isso por terem sido criados daquela maneira. Seguindo o lema “É apanhando que se aprende”.

Como que alguém que apanha durante a sua infância, sem merecer, sem explicação, pode crescer sadio? Como um ser nessas condições pode crescer e se tornar um adulto consciente de que violência não é modo de manter um bom relacionamento? Não me refiro um pai que dá uma palmada no bumbum do seu filho, quando ele diz pro filho pequeno que não deve colocar qualquer porcaria na boca. Apenas como um alerta do que deve ou não deve fazer. Lembrando que a Lei da Palmada já está em vigor. Nem isso pode!

Somos seres que aprendemos com o exemplo do outro! E a falta de referências, de bons exemplos na nossa sociedade, dá ação a um povo sem identidade. Que não não valoriza princípios e que vive desapegado a tudo a sua volta.

Um outro ponto que pesa ao pensar nesse assunto é a questão da situação das crianças e adolescentes após a denúncia. Muitas crianças realmente vivem em lares em que os pais são desequilibrados e não tem a mínima condição de cuidar dos filhos. E essas crianças acabam sendo levadas para abrigos para menores.

Existem abrigos muito bons e que realmente amparam as crianças e dão condições para que elas tenham uma vida digna. Mas, e o preço que cada criança e adolescente paga por crescer longe da imagem do pai e da mãe?

Eu sofri violência doméstica quando era mais nova. Meu pai era o agressor. Ele não era alcoólatra, ele não tinha nenhum problema mental, mas teve uma criação sofrida. Perdeu a mãe e o pai antes de completar os 16 anos, foi criado por uma tia que sempre teve fama de carrasca. E que para o meu pai foi a melhor pessoa do mundo, afinal, foi ela quem deu casa e comida pra ele. Ela batia nele com fio de ferro de passar roupa. Essa foi a imagem de cuidadora que ele teve.

Sem a referência de mãe e pai, aos cuidados da tia que se tornou referência para ele ficou difícil esperar outra atitude do meu pai. Eu só tenho essa visão da situação porque busquei ao longo da minha vida superar a dor e a raiva que sentia dele. Participei de muitas terapias.

E para que meu pai parasse de me bater, eu o denuncie, quando tinha 12 anos. Eu pedi pra minha mãe me levar ao juizado da infância e adolescência. Ela teve medo. E não queria me levar. Mas, eu teimei tanto que ela me levou. Após a denúncia, a assistente social falou com o meu pai, ele ficou consciente que não deveria fazer o que fazia. Hoje, meu pai é uma pessoa muito diferente do que era e se sente arrependido.

E algumas pessoas que conviviam comigo e sabiam da ação do meu pai, ficaram horrorizados com a minha ação. Eu recebi críticas por ter tomado aquela atitude. É estranho como as pessoas ficam indignadas com a violência com pessoas que elas não conhecem, mas são insensíveis ao ver e aceitar o problema dentro de suas próprias famílias. Ainda quando se toca no assunto, sou criticada, pois não deveria denunciar meu pai.

Muitas crianças e adolescentes sofrem com a violência doméstica porque quem agride acredita que está ensinando. E quem assiste, muitas vezes, foi criado daquela forma ou tem ligação afetiva com o agressor e não tem coragem de puni-lo.

Quem se cala ao ver a agressão precisa entender que está colaborando com a cultura da agressão.

Entender que o ciclo de violência precisa ser quebrado é essencial para reconstrução da vida desses pequeninos agredidos. Caso contrário ficaremos na definição de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”.

Vamos quebra o ciclo da violência. Apoiando projetos que valorizam nossas crianças e adolescentes, doando tempo ou dinheiro as Instituições que cuidam dessas crianças. Votando em políticos que estejam realmente envolvidos com a melhoria do país e da qualidade de vida dos brasileiros. E buscando criar diálogo das nossas dificuldades sociais para buscarmos soluções de forma colaborativa.