Caraca, meoooo! Chegou o meu dia de comemorar 3.5! São 35 anos de vida, são três décadas e meia, estou muito experiente! Dizer que estou velha me dá a sensação de que estou inútil. Ainda mais se olharmos a terceira idade atual, eles estão exalando bem estar. É só olhar para Iris Apfel, uma mulher que inspira! Espero chegar a idade dela com a mesma energia e autenticidade. Deus me ouça! rs…

E mesmo sendo um dia de comemoração, vem junto com esse tempo uma carga de cobranças sociais e até pessoais. Vou ser sincera, eu imaginava  que eu estaria em outro cenário nessa data. Teria minha casa própria e só consegui ter meu canto sozinha. Imaginei que teria alguém do meu lado, um homem, e ainda não o encontrei. De contra partida, tenho um pet macho, o meu amiguinho, minha companhia, o Zap! O qual não consigo aceitar como filho.  É meu pet! Gosto das coisas em seus lugares. 🙂

Eu sou metódica, tenho regras mentais, pode parecer loucura, mas sempre funcionou para tomar minhas decisões.

Escuto muito as pessoas me perguntarem “Michelle, quando vai casar?”. Bom, vou casar quando Deus quiser. E pelo jeito Ele não quer. Segundo a minha regra, casamento é algo a ser pensado quando tiver um namorado ou um noivo que também queira. O que já percebi é que querer casar no “auê”, cumprindo o socialmente correto, dá muita dor de cabeça. Eu não nasci pra viver a solidão companhada. Lido bem com a solidão sem ninguém ao meu lado. Então, atualmente, meus planejamentos só incluem essa que vos escreve. :p

A cobrança para se ter um padrão na vida adulta é tão dura que quando chegamos nessa fase e não temos “poder financeiro” é como se não fossemos bons. Como se todas as experiências não representassem nada.

Essa semana eu fiz uma avaliação sobre o que fiz até agora. E sinceramente, sinceramente mesmo, podem achar petulância, mas, estou me considerando muito bem. Eu conquistei muitas coisas que o dinheiro não conquistaria. E que por fé, por Deus, e a minha perseverança em realizar meus sonhos consegui.

Eu sempre tive muita facilidade em aprender trabalhos manuais. Sempre pratiquei esportes. Eu deveria ter seguido carreira de esportista ou artista. E não foi possível! Deus não quis assim, então, percorri outros caminhos.

Eu fiz dança (balé, sapateado, jazz, flamengo, samba, dança de salão) por boa parte da minha vida. E devida a necessidade de trabalhar, ganhar ‘din din”, fazer algo socialmente profissional, porque quem trabalha com arte não trabalha, né? O que é uma grande mentira! Mas, infelizmente é a imagem que se tem. Comecei a trabalhar cedo e deixar pra trás muitas coisas que eu gostava de fazer.

Eu comecei a trabalhar com 12 anos, com a minha família, meus pais tinham uma empresa de comidas congeladas. Com quinze anos eu já fazia 10kg de bolo confeitado por final de semana. E assim passei a minha adolescência, trabalhando de segunda a segunda, das 6h da manhã as 8h da noite. Por influência da minha avó e da minha mãe comecei a gostar de cozinhar. Amo cozinhar pra poucas pessoas. Enfrentar uma cozinha como antigamente, nem pensar! Meu limite é encontrar meus amigos e cozinhar pra eles, fazer festa! E amo mais ainda quando alguém se coloca pra lavar a louça. Compartilhar tarefas é sempre bom e não sobrecarrega ninguém. 🙂

Como trabalhar com a família é um processo complicado, na época, busquei outras opções de trabalho. No colegial cursei Publicidade e Propaganda e trabalhei como arte finalista, fazendo diagramação de jornal e revista. Foi uma fase libertadora, divertidíssima! Mas, quando tudo estava dando certo a “Lei de Murphy” apareceu e tornou a alegria em caos. E daí, meus pais estavam precisando de mais alguém pra trabalhar na empresa deles e voltei a trabalhar com comida. E o trabalho gráfico se limitou as produções de cardápio e folhetos para empresa deles.

E no meio do caminho, acabei me envolvendo em trabalhos voluntários. Eram todos ligados com a igreja. E foi nessas atividades que voltei a usar minhas habilidades gráficas, criando painéis para Escola Bíblica de Férias e interagindo com diversos tipos de pessoas. Comecei a conhecer mundos diferentes do meu, pessoas que viviam a beira da pobreza e que tinham rotinas duras, mas que ao mesmo tempo, eram otimistas de uma forma que eu nem imaginaria ser possível. Conheci pessoas riquíssimas, humildes e simples, que eu nunca imaginei que estariam envolvidas com trabalhos como aos quais nos envolvemos.

E nesse caminho comecei a trabalhar com missionários americanos que vinham pro Brasil evangelizar, foram os meus primeiros passos para aprender inglês. E com esse grupo eu aprendi e cresci muito, em todos os sentidos da minha vida. Como tenho uma base de dança, eu apresentava coreografias com músicas cristãs e me tornei interprete dos missionários. Depois de 3 anos convivendo com eles cheguei a fazer parte da equipe de coordenação do trabalho. Fiz amizades maravilhosas, melhorei meu inglês e me apaixonei pelo trabalho. Mas, como tudo que é bom uma hora termina, o grupo de americanos pararam de vir para o Brasil e não trabalhei mais com eles.

Nesse período eu estava cursando a faculdade de Relações Públicas, amando o curso. E eu brinco que nasci RP – MC (Mestre de Cerimônia). Meu nome é Michelle Cruz e eu amo conhecer pessoas, interagir, planejar e desenvolver atividades e ajudar as pessoas. Voluntariamente, eu sempre fiz o papel de RP – MC, agitando os encontros com os amigos e organizando os trabalhos da igreja.

Quando estava terminando a faculdade, um dos meus sonhos de adolescentes estava batendo no fundinho do coração. Ser modelo. Tenho 1,79 de altura, pesando 58kg, tendo todos os quesitos para ser modelo. E quando terminei a faculdade, decidi modelar, ao invés de seguir em busca de emprego na área de comunicação. Foi uma loucura! Foi uma das decisões mais loucas que tomei.

Quando eu era mais nova eu não tive a oportunidade de trabalhar como modelo, eu sou cristã e algumas pessoas da igreja falavam para os meus pais que eles não deveriam me deixar seguir essa carreira. E imagine o que eles fizeram? Seguiram os conselhos dos palpiteiros de plantão. E na mesma época, tinham duas garotas na minha igreja que eram modelos. E hoje, elas são modelos famosas. O interessante é que ninguém falava nada pra elas. Ninguém era contra o envolvimento delas no mundo da moda. Mas, para a negrinha falaram. Isso me irritava!

Então, como havia terminado a faculdade, eu poderia optar pelo o que eu quisesse , considerei o momento certo. Tinha 24 anos, aparentava ser mais nova, ainda daria pra tentar. E tentei! E de cara, participei do concurso da Revista Nova Cosmopolitan – Estrela Lux, fiquei entra as 9 mulheres que melhor representava a revista. Eu acreditei que tinha tirado a sorte grande e minha carreira iria decolar. Afinal, na época, há 10 anos, as portas estavam sendo abertas para os modelos negros. Só que foi tudo ilusão. Um pouco mais de dez anos depois a história é a mesma: temos poucos negros na mídia, pouca coisa mudou. O cenário é como se o negro não consumisse produtos divulgados na mídia. Detalhes graves a parte, segui o meu caminho. Trabalhei muito tempo como modelo e com eventos.

Cheguei a fazer fotos para um editorial de moda de uma revista que pela primeira vez resolveu colocar uma negra na sua publicação. Foi um momento que as emoções se reviraram, pois é uma delícia ouvir que eu era a primeira negra a ser fotografada para aquela revista, e ao mesmo tempo, frustante. Perceber que o racismo é tão enraizado na nossa cultura. E uma das coisas que mais me machucava era quando as pessoas falavam que eu tinha uma beleza exótica. Que os meus traços são finos e bonitos e comparavam com outros negros. Eu ficava triste em ser elogiada daquela forma. E quando eu chegava em casa eu encontrava a minha família, minha mãe tem traços de negro (narizão e bocão) o que não é tão aceito como bonito. E ela é bonita!  Ela foi Miss quando era moça. Nunca entendi essa necessidade de criar um padrão ao que é bonito. E o chato é que as as pessoas que falavam isso não percebiam/ percebem que são equivocadas em seus julgamentos. E que estavam rejeitando a minha família!

A falta de sensibilidade de algumas pessoas passa dos limites, elas são racistas e não percebem. E como explicar essas coisas? É o tipo de situação que n é impossível explicar, porque quando eu tentava explicar levava a fama de “causadora de problemas”, a que gostava de se fazer de coitadinha. Só de tocar no assunto me fazia errada, mas as outros falarem que pessoas da minha família não eram normais, não eram bonitas, isso era normal? Era aceitável? Gostaria que as pessoas entendessem que esses detalhes reforçam o racismo.

Após participar de várias seleções pra modelo e não ter retorno vantajoso, decidi fazer o curso de comissário de voo. Eu precisava de estabilidade financeira. E como havia ficado muitos anos sem trabalhar na área de comunicação eu não conseguia trabalho. Acabei trabalhando como vendedora em uma loja de roupas, marca famosa, fui a primeira negra a trabalhar na loja. Mais um momento que eu não sabia se ficava feliz ou se chorava de desespero. De ainda os negros estarem recebendo a chance de fazer parte de alguns meios sociais que deveriam ser frequentado por todos. Dura realidade!

O negócio, a solução, sempre foi focar no melhor e se dedicar aos novos planos.

Terminado o curso de comissária de voo e aprovada pela ANAC, enviei currículo para as cias aéreas. E não consegui a vaga de comissária, comecei como agente de aeroporto.Cheguei ao cargo de supervisora de aeroporto em menos de 2 anos de empresa. Um feito incomum para quem trabalha na aviação. Graças as minhas habilidades com eventos e o costume de trabalhar sob pressão, consegui me destacar. E o objetivo de ser comissária ficou para trás. Percebi que o voo não era o meu lugar, sem contar que depois de um tempo, já fora da empresa tive uma trombose na perna direita. Essa doença me fez repensar muitas coisas na minha vida. E acreditar que eu tinha muita coisa a fazer ainda. Eu havia sobrevivido! Aquele coágulo poderia ter colocado fim a minha vida. Ou ter deixado sequelas e graças a Deus não tenho nada. Nenhuma marca! Apenas os exames que comprovam a minha superação física.

E foi trabalhando na aviação que comecei a viajar e conhecer mais pessoas. E o meu mundo cresceu. Consegui fazer minha primeira viagem internacional, aos 28 anos. Conheci Paris, Lyon, Nice, Monaco, Cannes e Barcelona. Graças aos amigos que moram fora do país, fiz a viagem dos sonhos. Juntando as moedinhas, fazendo uma super economia, vendendo meus artesanatos de crochê e fazendo os eventos extra trabalho. Vivi momentos únicos e fiz amizades que são pra vida toda.

E em meio essa loucura toda, ajudei uma garota da África do Sul que desembarcou no aeroporto que eu trabalhava. Ela ficou sem dinheiro e me pediu ajuda pra entrar em contato com o banco dela na Inglaterra. Eu tentei mas não conseguimos nenhuma solução. E sensibilizada com  a situação dela, a convidei pra ficar em casa. E essa estranha se tornou uma grande amiga.

E quando tudo está muito bom, sempre aparece algo complicado e/ou dolorido.

Em 2011, perdi a pessoa  mais importante na minha vida, a Dona Therezinha, minha avó. Ela sofreu um acidente, um ônibus a atropelou em uma avenida movimentada de Campinas. E nessa época eu estava trabalhando em Natal, eu era supervisora de aeroporto. E minha cabeça virou do avesso. Meu chão se abriu. E minha mãe precisava de ajuda pra cuidar dela. Acabei voltando para ajuda-las.

Cheguei na hora certa, ao mesmo tempo, cheguei tarde. Cheguei um dia antes do falecimento dela. Ela estava me esperando pra despedir. Fui visitá-la dia 07 de junho, ela estava sem sedativos, batimento fraco e quando comecei a falar com ela o batimento subiu. Fiquei emocionada, cheia de esperança que ela voltaria pra casa comigo. Era apenas um sinal de despedida. Eu ainda não sabia do quadro real. No final da visita, na UTI, a médica falou que estava apenas esperando ela nos deixar. Não tinha mais nada a fazer. Dia 08 de junho ela faleceu. Minha avó aguentou exatamente 2 meses, entre o acidente e o falecimento, com as costelas trincadas. Ela sofreu o acidente dia 08 de abril e faleceu 08 de junho. Que dor!

Ela foi muito importante pra mim, muito da minha personalidade eu devo a ela. A garra de vencer, a gana de viver, é dela! Uma senhora analfabeta, ex-doméstica, empreendedora (vendia comida por encomenda pra se sustentar e a família também) e contadora de histórias. Ela foi uma das melhores pessoas que conheci,um exemplo de mulher! Minha avó, minha “cumpanheirinha”, a Pistolerinha (nosso apelido na intimidade)… rs.. e ela me chamava de fiinhia (filhinha) e patroinha. Ela nunca conseguiu se sentir dona da própria casa, mesmo tendo conquistado muitas coisas. Ela passou a vida se colocando na posição de servidora. Uma das posturas da maioria dos negros que mais os impedem de crescer e conquistar um bom posto na sociedade. Socialmente, é como se o negro devesse ser empregado a vida toda.

E como tentativa de superar essa fase triste fiz minha segunda viagem internacional. Durante quase 5 meses, visitei Londres, Edimburgo, Inverness, Liverpool, Salisbury (Stone Henge), Manchester, Lyon, Mont San Michel, San Malo, Palácio de Versalhes e Disney Paris. Mais um sonho realizado, morar fora do país. E essa viagem foi possível porque fui visitar a minha amiga sul africana que mora em Londres. A garota que ajudei no aeroporto. E que eu nem imaginava que iria vê-la novamente. Eu acredito que estamos no mundo para cumprir uma missão. Como diz no árabe Maktub! – Está escrito!

E depois de muita diversão, voltei para o país tropical. Acreditando que arrumaria trabalho com facilidade. E não foi! Na tentativa de voltar para área de comunicação, fiz o curso de radialista-locutora, consegui minha credencial de jornalista. Sou uma comunicóloga completa! E mesmo assim, passei momentos bem difíceis. A solidão tem sido uma amiga maravilhosa. E cada momento da minha importantíssimo.

E como sonhar é algo que basta parar pra pensar e minha mente fervilha, eu arrumei tempo para saltar de paraquedas, de asa delta e patinar no gelo. E falta saltar de bugee jump e ir pra Austrália. Detalhes! Basta que eu trabalhe e cuide bem do planejamento que logo chegarei lá. Claro que eu não vou contar pro meu pai, se não ele vai enfartar. Sou uma eterna criança no olhar dele. :p

E nos últimos anos me dividi exercendo várias atividades, no pique bem brasileiro, trabalhei como agente de viagens, coordenadora de eventos, fiz muitas peças de artesanato pra vender. E comecei a perceber que ter o meu próprio negócio é o caminho certo. Ainda estou desenhando o negócio, é apenas uma ideia. E também vou dedicar um pouco do meu tempo as crianças de abrigo do Esperança sem limites.  Estou diante de uma nova fase, e como sempre acontece, vou ter minhas novas descobertas e experiências logo logo.

Depois de tantos anos fora do mercado de modelos, no ano passado, fui convidada para participar de um curta-metragem de moda. Por uma marca de acessórios de viagem de Barcelona. As criações são inspiradas na arquitetura brasileira. São produtos de primeira linha, nunca imaginei ser escolhida para uma oportunidade como essa. E fui! Trailer do curta “Discovery Time” .

E após relembrar muitos dos acontecimentos da minha vida, percebi que tive muitas conquistas. E o fato de não ser rica não me impediu de realizar meus sonhos. E se a definição de Joseph Ross é certa eu sou bem sucedida. Eu fiz várias coisas! E acredito que posso fazer muito mais.

Sucesso.jpg

Com 35 anos completos e sou uma pessoa feliz. Que ainda tem muito o que aprender e conquistar. Comunicóloga completa com muitas experiências. Autora desse blog – Mistura Criativa e colaboradora no Projeto Obvious, com página INconvencional, duas outras realizações pessoais. Como diria a minha avó “É de grão em grão que a galinha enche o papo.” e eu mesmo anonima me sinto realizada.

O que eu tenho planejado eu tenho conquistado. Nem tudo do jeito que eu quero, mas tem chegado a mim tudo que é necessário.

Só  me resta ser grata a Deus por tudo que eu conquistei e passei. Grata a todas as pessoas que cruzaram o meu caminho, as que me fizeram rir e também as pessoas que me fizeram chorar, por todo aprendizado. Tudo me fez ser quem sou!

Como gosto de dizer “Fé em Deus e pé na estrada!” ou “Fé em Deus e vento de proa”, o melhor está sempre por vir, sempre! Amém! Assim seja! ❤

Beijos de luz,
Michelle Cruz