E como num passe de mágica, o meu mundo desabou, eu me vi sozinha. Minha família morta diante de mim. Uma avalanche de terror e terra desmoronou sobre a minha casa, o meu lar. Eu já não tinha mais nada. Era eu e eu. E as pessoas que me rodeavam querendo saber o que eu iria fazer. E nem eu sabia, eu nem queria fazer nada. Queria apenas ficar em silêncio.

Sozinha. Sem casa. Sem nada material. Eu me sentia moralmente nua. Eu me questionava “Será um castigo? Desgraça de graça. Quem merece isso?” Não desejaria essa experiência a ninguém, nem mesmo a quem eu odiasse. É como estar no fim do mundo, no nada e ninguém aparecesse para ajudar.

Quando se tem dinheiro, quando se tem boa fama, com certeza, algum bom lugar você encontra pra ficar. Nem que seja temporário. E quando você não tem nada de valor financeiro? Os olhares são de reprovação, de dó e piedade. Estava me sentindo como uma pedinte. Eu era mais uma necessitada na rua. Que horror! Nunca me imaginei naquela situação.

Durante dias pouco vi de amor. Apenas máscaras de dor. Muitas pessoas me desejavam o melhor e nada do melhor chegava. Diziam  que sabiam o que eu sentia e que a qualquer momento tudo poderia ser melhor. E eu me questionava “Como podem entender a minha dor se nunca passaram por nada disso?”. Que medo tenho das pessoas e seus falsos discursos de bons samaritanos. E nenhuma atitude solidária.

Por três dias dormi num albergue pra mulheres, lugar estranho, com muita gente ressabiada, um grupo de estranhos necessitados. Hora riam, hora choravam, hora ninguém se achava coitado, hora todos falavam como ricos. Horas que passavam e ninguém percebia a loucura. O  mundo omisso que inventavam. É incoerente a  forma que todo mundo vivia, sobrevivia. Mas, parecia ser a melhor forma de driblar a realidade. Sublimando, ignorando a própria realidade.

Se eu passasse mais tempo naquele lugar, talvez, eu enlouqueceria. Ou talvez, fizesse como todos ali me tornaria mais uma deles, sairia contato todas aquelas inverdades, com tanta firmeza que acreditaria que aquele era o melhor pra mim. E viveria a verdade deles, que seria a minha verdade.

Naqueles dias eu nem sabia mais o que era mentira ou verdade. Eu só sabia o que eu queria, estar longe daquele lugar e mais perto de quem eu amava. E eles não estavam mais comigo. Era um sonho impossível de realizar.

Aos 20 anos, sem família, as opções para ganhar a vida não são otimistas, são de pura crueldade.

Há uma semana atrás, eu sonhava com a universidade. De uma hora para outra passei a sonhar com a minha sobrevivência e segurança. Havia mudado todas as minhas prioridades. O modo de vida. A realidade era outra. Era um verdadeiro teste de resiliência, sobreviver a tudo isso é prova de coragem ou a porta da desgraça.

Com tanta pressão, depois de tanto chorar e a fome começar a me irritar. Engoli o choro e sai como pedinte pelas ruas da cidade em busca de uma forma de me safar. Encontrei muita gente errada. Desviei e corri assustada, buscando o que me ajudava. Engoli sapos. Ignorei comentários. Só não comi o pão que o diabo amassou, porque eu não vi o diabo. Mas, acabei passando dias dormindo na rodoviária. E ganhei muitos trocados.

O estranho que nos primeiros dias eu pedia um emprego e olhavam pra mim, riam e me ignoravam. E quando pedi dinheiro, olhavam com desprezo, mas me davam. Como alguém pode alcançar respeito desse jeito? Contradições de um povo mal-acostumado. Que conhece o valor de dar, mas não de ajudar a melhorar. É como se fosse bonito ajudar as pessoas continuarem nas ruas, oferecendo trocados. Eles me ajudaram a sobreviver, mas eu queria viver com dignidade.

E como um novo passe de mágica, uma senhora cruzou o meu caminho, na rodoviária. Eu já tinha a visto. E ela me abordou de forma direta e disse que queria me ajudar. E eu ansiosa por uma oportunidade fiquei escutando ela explicar.  Eu tive medo, afinal, propostas não faltam nos corredores e cantos da rodoviária. Pra ganhar qualquer trocado ou dar consolo a um passageiro interessado numa garota mais nova é questão de olhar para os lados e lá estará o necessitado e o necessário. É terrível, é humilhante. Sensação de desprezo e nojo. Graças a Deus, muita coisa eu consegui superar e evitar.

A senhora me ofereceu um emprego. Receosa, ao mesmo tempo, ansiosa fui com ela até o lugar, a casa onde eu poderia morar. Por sorte, foi uma decisão perigosa, mas consegui um canto digno pra ficar.

Chegando na casa, fique abismada. Uma casa enorme, um sobrado, tinha um jardim florido e muitas árvores. Um ambiente bem diferente da realidade que já tinha vivido. Minha casa era na comunidade antes do falecimento da minha família. Meus últimos dias foi enrolada no jornal. Aquele lugar era um palácio.

E foi assim que começou o meu mundo encantado. Dessa vez o passe de mágica me trouxe alegria. E aquela senhora se tornou minha fada madrinha. Hoje é ela uma amiga, das melhores e a única. Ela morava sozinha naquela casa enorme. Ela tinha família e não convivia com eles. Eu nunca entendi o que acontecia. Eu apenas observava, nunca tive coragem de questioná-la.

Passei 3 anos trabalhando na casa, fazia de tudo. Limpava a casa, cozinhava e até serviço de banco. Tudo que a senhora precisasse. Ela confiava em mim e eu nela.

Um dia ela me chamou para conversar. Sempre conversávamos, mas o jeito dela aquele dia era diferente. Eu fiquei um pouco assustada. Ela estava agitada. Começou a dizer que era hora de eu procurar novos rumos. Da forma que falava parecia que iria me mandar embora. E comecei a ficar angustiada. Eu estava bem não queria nada a mais. Morar ali e viver quieta me parecia ótimo. Eu não tinha ganância.

Ela começou a me questionar sobre sonhos, contar os sonhos dela, como ela conseguiu conquistar todo o seu patrimônio. E que eu deveria pensar em novos horizontes. E que tudo era possível realizar. Acabei contando do sonho da faculdade que deixei pra trás. Contei coisas que depois do falecimento da minha família havia decidido enterrar. Por mais que tivéssemos convivendo por um longo tempo juntas ela respeitava o meu silêncio.

A minha vida sempre foi simples, sempre morei num lugar que as pessoas adoravam uma fofoca, aprendi muito nova que quanto menos falar é melhor. E a pouca vivência na rua, com estranhos, reforçou essa posição. E durante todo o tempo com a senhora eu me limitava a cumprir ordens. Eu sabia que era um bom comportamento a seguir para me manter protegida, com casa e comida.

E naquela conversa ela me deu a chance de sonhar. Ela contratou outra moça pra me ajudar nos serviços da casa e comecei a estudar.

Meus últimos 4 anos eu cursei a faculdade de administração. Estive envolvida em projetos sociais de coleta de recicláveis. E trabalhando para a abertura de um negócio próprio. Hoje tenho minha casa própria. Tenho orgulho de quem eu sou. E tudo graças a uma oportunidade de uma senhora que por mim passou na rodoviária e mudou a minha história.

Um passe de mágica, uma atitude que me encantou, uma oportunidade que me transformou e conversas que me mostraram novos horizontes. Eu tive a chance de escrever uma história mais otimista e mais digna.

A vida é uma verdadeira caixinha de surpresas!