Meu cabelo é cacheadinho e eu sempre gostei do meu cabelo natural. Boa parte da minha vida escutei pessoas dizerem que eu deveria alisar definitivamente o meu cabelo pra parecer mais “limpinha”, que o cabelo liso aparentava estar mais “arrumada”. Mas, nunca tive coragem de fazer alisamento definitivo. E por um bom tempo fiz escova e usei chapinha.Porque, infelizmente, em alguns ambientes que trabalhei contava ponto estar nesse padrão. E como deixar o cabelo natural não era o que alguns dos meus chefes esperavam de mim, cumpri o padrão por um bom tempo.

Até que eu decidi ser modelo. E fui chamada para fazer um teste de cabelo. Acabei sentando na cadeira do Aguinaldo (Aguinaldo Cabelos Cambuí). Ele é um dos cabeleireiros mais conhecidos da cidade, atende boa parte da elite campineira. E a maioria da elite campineira tem cabelo liso. Então, achei que ele fosse alisar meu cabelo. E errei! Errei feio! Ele me aconselhou a cortar o cabelo estilo black power. Lembrando, que nessa época eu adorava usar rabo de cavalo. Raramente eu deixava o cabelo solto! Eu tinha vergonha do volume. Mas, com o incentivo do Aguinaldo acabei assumindo e gostando. Isso aconteceu há quase 15 anos atrás.

Depois dessa situação com o cabeleireiro de Campinas, eu participei de um concurso da revista NOVA, atual Cosmopolitan, e ganhei uma transformação total. Fui parar na cadeira do Marco Antonio de Biaggi (MG Hair), o cabeleireiro queridinho das celebridades.

Nova Cosmopolitan1

E pensando nas transformações que ele sempre faz nas mulheres fiquei esperando que ele fosse alisar meu cabelo. A maioria das mulheres que participam dessa editoria da revista alisam ou escovam, quase nunca deixam o cabelo natural. Mas, foi mais uma vez que eu errei! O Biaggi simplesmente resolveu deixar meu cabelo natural. Ele disse que não tinha cabimento desvalorizar um cabelo natural tão bonito. E ainda me chamou de Marilyn Negra. 😉

Bom, por duas vezes, fui precipitada em pensamento. Só porque estava diante de cabeleireiros que estavam acostumados a tratar mais de cabelos lisos do que cacheados, achei que eles me tratariam da forma que as trata. E pelo contrário, valorizaram o quem eu tenho e sou!

E depois de ter duas experiências super positivas. E em 2015 fui convidada para participar de uma pesquisa de um salão especializado em cabelos cacheados, enrolados, crespos. E percebi a “ditadura do cabelo cacheado”. Eles oferecem produtos que tiram o volume do cabelo, de forma insistente até a quem não precisa de relaxamento. Quando a “moda” é cabelo natural, valorização da BELEZA NATURAL, encontro pessoas querendo remar contra a maré. E pessoas que se dizem dispostas a superar o preconceito e ser diferente no mundo que oprimi.

Realmente, precisamos conviver mais uns com outros, prestar mais atenção no que as outras pessoas dizem e nos ofertam.

Esse tipo de situação me faz pensar se devo levantar uma bandeira em defesa do negro. E dizer que os negros sofrem e são injustiçados. Quando alguns negros criam uma nova forma de oprimir seus semelhantes. Seja como eu fiz, criando um pré conceito, pensando que os cabeleireiros brancos iriam mudar quem eu sou e eu errei. Ou seja, os negros que obrigam outros negros a manterem seus cabelos comportados sem volume.

A opressão está em todos os lados. Basta saber que lado cada um de nós irá escolher. Aceitar o que não é bom é uma ação individual, isso sim, vai influenciar e mudar o pensamento da maioria das pessoas.

P.S.: Com esse texto não estou afirmando que os negros geram o preconceito, mas sim, que quando criamos uma barreira e dizemos que os brancos não nos aceitam, em alguns casos pode ser mentira. E que devemos sempre analisar caso a caso para não criarmos mais preconceito e continuarmos vivendo no círculo de acusações sem fim.

Beijos de luz,
Michelle Cruz