Estou participando do PROJETO ESCRITA CRIATIVA, é grupo que tem o objetivo de reunir pessoas que gostam de escrever. E todo mês é escolhido um tema pra que cada um faça seu texto, crônica, poesia ou gênero que considerar mais interessante. O tema de julho é “Um estranho na rua” na visão de uma garota preconceituosa. Boa leitura!

Diário – dia 25/06/15

Oi diário!

Meu primeiro dia de escrita para a terapia. Essa ideia de terapia escrita é um saco! Se bem que pintar aquelas figuras também é horrível. Eu fico estressada! Aquelas figuras cheias de detalhes, fico concentrada naquilo sozinha, não dá, afe! Não é pra mim! Sobrou escrever. Só está difícil reler! Mas, tudo bem! Um dia dá certo. Eu acho que estou bem…

Bom… acordei cedo, fui pra academia e não tinha ninguém. Foi bem chato! Fui pro trabalho e fiquei a manhã toda organizando o estoque. Enviando relatórios. Tudo sozinha! Só fiquei animada na hora do almoço. Se bem, que hoje fui almoçar sozinha, a maioria levou marmita, coisa de pobre!

Mas, foi o melhor momento do meu dia! Como é bom comer ao ar livre, olhando as pessoas. Só que hoje esqueci meus óculos no escritório. E sem meus óculos todos são desconhecidos… rs! As vezes, eu vejo um estranho na rua, quando ele se aproxima, de repente é um amigo. Reconheço e fico feliz. Mas, já aconteceu de um estranho na rua se aproximar de mim e eu ir cumprimentar. E a pessoa desviar e nem falar nada. Fico com cara de doida! Que vergonha! Sem meus óculos eu passo muita vergonha, entro em cada cilada! Credo!

Eu adoro sentar nas primeiras mesas do restaurante. Eu fico só observando, vendo quem passa, avaliando esse povo. Na minha opinião, tem muita gente esquisita, poucos normais, pessoas como eu. É isso que fico fazendo no meu horário de almoço, no meu horário livre. Observo, como, bebo, observo, comento ou só penso e não consigo aceitar muito das coisas que eu vejo. E a minha uma hora de almoço passa voando que nem percebo. Alguns não gostam de almoçar comigo, por causa dos meus comentários. São comentários sinceros, eu considero construtivo. Uma pena que eu não tenha tempo para falar com cada um que passa por mim. Eu sou sincera, as pessoas não me entendem, me chamam de mal educada. Credo! Só falo verdades, nunca mentiras. Eu nasci desse jeito, sincera ao extremo.

Na última semana, no trabalho, contrataram uma garota pra ajudar no meu departamento. Eu logo que olhei pra ela a achei chata. Meu santo não bateu com o dela! Nem precisei de convivência pra dar meu parecer sobre a novata. O inacreditável é que todo mundo diz que tenho muito o que aprender com ela. Como pode aparecer do nada uma pessoa que vai me ensinar alguma coisa? Eu não vejo nada de especial nela. Ela é muito oferecida, sempre quer ajudar todo mundo, o jeito que ela usa o cabelo é ridículo e ela adora comer marmita. Ela quer se aparecer, fala com todo mundo, toda hora! Ela é insuportável! Ela não é normal pra mim!

Ontem, estava chovendo, eu pedi pra entregarem meu almoço no trabalho. Não queria ficar com o corpo molhado no segundo tempo do dia. O restaurante que gosto de ir fica próximo, mas esqueci meu guarda chuva. Nesses dias me sinto como uma pessoa feita de açúcar, vou derreter se cair um pingo em mim. Na verdade, eu faço escova no cabelo, se cair uma gota de água no meu cabelo eu viro uma bruxa. Detesto chuva! Bom, o que eu quero contar é que tive que sentar perto da novata pra almoçar. E ela estava falando sem parar. E eu acho que o pessoal estava gostando. Eles estavam vidrados nela. Eu estava cansada de olhar pra ela, de ouvir a voz dela.

Ela estava contando que fez amizade com um morador de rua, um mendigo! Credo! Ela é muito estranha, chata, uma pobre! Ela disse que sempre gostou de ajudar pessoas carentes, que sempre doa roupa para esses indigentes de rua. E que aprendeu muito com essas experiências. Ela é uma louca!

O auge da conversa foi quando ela disse que não estava sendo uma boa pessoa em simplesmente doar coisas, e que ela percebeu a necessidade de gastar tempo com esses moradores de rua, que tinha que conversar com eles. Ela disse mais, que ajudar esse tipo de gente sem oferecer uma opção de sair da rua é reforçar uma filosofia que a vida na rua é comum, é normal. Era como alimentar a pobreza e nunca dar uma oportunidade delas viverem fora das ruas, em suas próprias casas, com suas famílias. E que um rapaz pra quem ela dava roupas, confessou pra ela chorando, que sonhava que um dia ela parasse pra conversar com ele. E que no fim ela o ajudou a reencontrar a família dele. Parece história de filme! Ai ai ai…

Pra ser sincera, eu até achei coerente o que ela disse, mas, vai fazer o que? Vou gastar meu precioso tempo com qualquer um? Vou colocar todos os mendigos em casa? Ela é doida, é estranha! Ela se aproxima de gente que não tem nada a ver com ela! Bom, eu sou diferente dela, eu sou normal! E quero continuar assim!

Bom, eu acho até certo alguns comentários dessa novata, mas não vou dar o meu braço a torcer. Vou continuar dizendo que ela é estranha. É o que ela me aparenta. É o que eu vejo. Não preciso de conviver com ela! E o que eu faço não é nada de mais. Eu apenas observo o que acontece, algumas vezes, comento. Não me envolvo com gente estranha. Eu não mereço conviver com esse tipo de gente.

A verdade é que eu não vou gastar meu tempo com um estranho na rua. Só me dou com quem eu conheço. O resto cada um que se vire. Conviver com essas pessoas é pobreza de espírito, é a morte! Eu tenho uma mente evoluída!

Coisas da vida… boa noite! Eu estou cansada! Já escrevi muito por hoje! Tchau!

Estranho
(Essa imagem é antiga, mas complementa o texto)