Quem quer ir pro céu? Ir pra Beleléu? Acho que ninguém, o fato é que não há dia certo pra ir pra lá. Agora pode ser a hora de alguém…

Acordei às 7h da manhã, atrasado, como sempre, meu horário certo é as 6h. Rapidamente me arrumei e sai para trabalhar. E como sempre, fila pra aguardar o ônibus, ônibus lotado, gente falando por todos os lados. As mesmas situações de sempre. Essa situação me deixa estressado, fico revoltado logo cedo. É angustiante toda essa pressão nessa cidade. Na disputa pra entrar no ônibus, na correria das pessoas nas ruas que nem se olham. Eu também não olho. Queria que fosse diferente, mas eu faço igual a todo mundo. Eu não vejo saída, eu só sigo o sistema. É como se eu ouvisse minha mãe ainda cantasse pra mim “Síndrome de Gabriela… eu nasci assim, vou ser sempre assim, vou morrer assim, sempre Gabriela”. Sei lá! Uma merda essa vida!

E na loucura do transito até o trabalho eu fico ligado no celular, vendo as notícias. Bom… notícias, né?! As conversas no facebook, os novos posts dos amigos no instagram. E meu chefe sempre me zoa, pergunta se eu tenho alguma novidade que não seja fofoca de amigo. Acho que ele não me entende. É a conversa da galera. Sei lá! Eu sempre estou de boa! E sempre alguém quer encrencar comigo. Enfim… nem sei porque estou falando do meu chefe. Eu como sempre de boa, logo vi uma mulher linda na minha frente. Roupinha top! No salto! Muito gata! Mulherão! Gostosa! Eu com celular na mão, já lancei a foto pro grupo do trabalho no Whatsapp. E a legenda do papai aqui é pra apavorar “Tô chegando na firma, acompanhado!”. Foi só risada! Dominei o assunto da manhã. Eu sou o cara!

Muito gata, ela usava um vestidinho justo preto, achei que deveria ser até mais curto. Com certeza ficaria melhor. Quase desci no ponto errado, ainda bem que ela também desceu, eu estava hipnotizado. A sorte que o ponto é na frente da firma. E ela ficou na porta, falando no celular. Corri pra bater meu ponto. Já estava atrasado, o chefe me olho de lado, isso sempre acontece. Um dia eu vou mudar meu jeito de ser, quando eu for mais velho. Ninguém entende essas coisas são da minha idade.

Entrei na firma, cumprimentei os caras, só risada. E antes que eu chegasse no balcão escutei um barulho na porta da frente da firma, a porta estourou, coisa de maluco. E logo entraram dois caras armados e uma mulher, uma fumaça branca dominou tudo. Eu debaixo da mesa, filmando tudo. Eles começaram a recolher os celulares, bolsas, dinheiro, tudo o que era de valor. E eu quietinho debaixo da mesa. Estavo confuso que nem percebi que tinha uma mulher trás de mim. Ela logo tomou o celular da minha mão. E daí, percebi, era a mulher gostosa do ônibus. Ela me deu um chute na cara, dizendo “essa foi por me olhar tanto durante o trajeto do ônibus”. Fiquei apavorado, com medo, sem graça! Sem reação! Estava me sentindo um bosta, como se eu fosse nada.

E na sequência, alguém gritou que a polícia estava na frente da firma. Nesse meio tempo que os parceiros dela recolhiam as coisas pelas salas, ela me escolheu como refém. Que terror! Fudeu pro meu lado! Que medo!

Minutos atrás ela estava na mira da minha câmera no ônibus e agora eu estava na mira de um “três oitão” (revolver taurus 38). Que vida louca! Eu pedia a cada segundo pra que Deus me tirasse dali. Mulher gostosa? Que se foda! Quero ficar longe dessa louca!

Foi tarde meu pedido, ela me arrastou até a porta da saída e escutei um tiro. E ela caiu comigo no chão. Ela foi atingida. E sem piedade, ela olhou no meu olho e puxou o gatilho.

Eu fui pra beleléu… pro céu!

Sem dó e nem piedade! Aquela mulher era o capeta em forma de gente. Como eu gostaria de ter a chance de voltar e recomeçar aquele dia. Acordando no horário certo, olhando para as pessoas, fazendo algo diferente. Morri sem experimentar muitas coisas. E o pior, desejando o que foi a causa da minha morte, maldita mulher. Eu realmente não soube fazer boas escolhas. E a escolha errada me condenou, tirou minha vida. Beleléu agora é o meu lugar…