Uma parte da estória, as palavras de um jovem órfão: “Quando se fala de salvar a vida de um bebê, evitar um aborto, muitos apoiam e defendem. E quando o tempo passa e esse bebê é um adulto desequilibrado, sugerem até a morte, é inacreditável, é injusto!

Tem coisas que eu nunca vou entender nesse mundo, nem vou conseguir aceitar. E uma delas é: como pode alguém discursar sobre algo que não tem vivência? Sem avaliar realmente os pós e contras de uma situação.
Eu cresci sem conhecer meus pais, sem ter uma base familiar. Minha família foram os meus amigos, as pessoas que me rodeavam e me faziam sentir bem. Muitas dessas pessoas nem sabem que foram meus tios, primos, avós. Era a minha forma de superar a tristeza de viver sozinho. Eu criava meu mundo e incluía as pessoas da forma que me agradava.
Eu me considero uma pessoa vencedora, mesmo com muitos motivos para dizer ao contrário. Tenho conseguido superar as tristezas e dificuldades da vida, porque eu acredito que existe uma força superior que cuida de nós, que esteve comigo durante toda a minha vida e ainda me acompanha. E me fez e faz ter coragem de não estagnar nos problemas que me causaram e me causam.
Durante o tempo que morei em orfanatos, eu era o menininho bonitinho, tímido e medroso. Quase não falava com ninguém, vivia pelos cantos, observando e esperando que alguém ou uma família gostasse de mim e me tirasse dali. E isso nunca aconteceu! Eu vi amigos irem embora e serem felizes. Eu vi outros amigos voltarem para o orfanato mais triste do que saíram. Em alguns momentos, nós éramos tratados como coisas, bonequinhos, como se não tivéssemos vida, nem sentimentos. Não é foi fácil encarar com pouca idade tanto sofrimento.
Quando eu tinha por volta de oito anos, uma senhora viúva, começou a visitar o orfanato. E ela sempre brincava com a gente. Fazia bolos, dava brinquedos e nos levava para passear no parque. Ela nos tratava como filhos. Na nossa casa tinham quinze crianças, ela era atenciosa com todos. Eu tive por alguns meses o que eu não tive por boa parte da minha vida. A figura de mãe cuidadosa, amiga e atenciosa. Fico embargado só de lembrar. Todos no orfanato se apegaram a ela. E de repente, de um dia para o outro, depois de seis meses, essa senhora desapareceu do orfanato. Nunca mais apareceu para nos ver. Ninguém nos explicou o que aconteceu. Eu cheguei a ouvir no corredor que ela estava numa fase difícil. Ela decidiu por ser voluntária porque se sentia sozinha. E seu marido tinha morrido há pouco tempo. E ela achou que a sua dor seria curada ajudando outras pessoas. E nos escolheu para isso! Ela escolheu crianças para resolver os problemas dela. Que covardia! A dor dela foi curada e a minha e dos outros garotos só aumentou. Eu fiquei sem chão por alguns meses. Com o tempo fui me esquecendo dela, mas não do sentimento que era conhecer alguém e de repente a pessoa sumir. Ela era uma senhora de aparência boa, meiga, boazinha. É estranho associar maldade com aquela carinha doce. Enfim, é melhor não falar mais dela. Pensar nessa senhora me faz lembrar de coisas boas e ruins também.
Atualmente, o que mais me deixa indignado são as pessoas discutirem tanto sobre o assunto ABORTO! Eu passei por tantas coisas ruins que sou a favor de que as pessoas possam optar por abortar. Sou a favor da legalização do aborto. Porque ter um filho e deixa-lo em um orfanato não é dar direito à vida. É condenar uma criança e um futuro adulto ao massacre. Fico abismado com tantas pessoas puritanas que são contra o abordo. E eu queria saber, quantas delas adotam crianças? Porque é lindo falar lindas palavras, fazer trabalho social por alguns meses. Eu quero ver as pessoas manterem a linda ideologia por anos, por toda uma vida. A vida não é feita de decisões isoladas, todas as nossas decisões tem consequências. E não legalizar pode ocorrer o abandono de muitas crianças, sem contar o número de mulheres que morrem nas clínicas clandestinas.
Eu valorizo muito a vida, mesmo sendo fruto de um relacionamento impensado. Quando eu me casar e tiver um filho quero ser um super pai. Nunca vou dizer a minha mulher para abortar, mesmo que não seja planejado ou não tenha as melhores condições financeiras. E também, se eu tiver no meu círculo de amigos alguém que não queira ter filhos e pense em abortar, nunca vou motivar para que o faça, mas nem o condenar por querer fazer. Eu sou um milagre, eu sobrevivi aos sofrimentos. Mas, são poucas pessoas que conseguem superar de forma positiva. A maioria dos meninos que moravam comigo no orfanato estão presos e perdidos no mundo.
Há pouco tempo atrás, eu vi um dos garotos do orfanato assaltando um casal. E do meu lado tinha um senhor que logo disse “Esse menino é uma vergonha para os pais dele, roubando, que feio! A polícia tem que prender, esse malandro tem que morrer! Raça ruim!”. E eu não me contive e respondi para o senhor. “Ele não é nada para os pais dele, ele cresceu em orfanato, ficou preso a maior parte da vida dele. E a qualquer momento pode ser preso novamente, numa penitenciária e continuar excluído da sociedade. Como se ele sozinho tivesse causado todo esse desgosto que ele vive e transmite para os outros.”
Quando se fala de salvar a vida de um bebê, evitar um aborto, muitos apoiam e defendem. E quando o tempo passa e esse bebê é um adulto desequilibrado, sugerem a morte. As vezes, o ser humano é desumano, é inacreditável, é injusto! Quando é que as pessoas vão aprender a respeitar uns aos outros?
É fácil falar de justiça, difícil é ser justo! Justamente, com o desconhecido, com as histórias que não conhecemos. Pura hipocrisia!
Eu preciso ir, esse assunto me deixa indignado, triste e me consome…

Ilustração: Rogério Rocha – @gentilpirado

Texto publicado no site Obvious – http://obviousmag.org/inconvencional/2015/06/o-orfao.html