“Confessionário”, estórias de histórias. Algumas nos fazem chorar, outras rir e até repensar na vida. Essa estória é da mãe de três meninas, trigêmeas!

Ser mãe é um desafio. Imagine ser mãe de três meninas? Trigêmeas! É um triplo desafio! É um combo de emoções. Só eu sei o que eu já vivi com essas meninas… rs! Já chorei muito com as peraltices delas, como também, já ri e sorri muito com elas. Minhas filhas são lindas, eu como mãe coruja não poderia dizer outra coisa.

Eu sou uma mãe que gosta muito de elogiar, e da mesma forma, eu cobro muito das meninas. Falo meninas, mas essa semana elas completam 18 anos. Já não são mais meninas pequenas, são mulheres. Ainda estou me acostumando com as mudanças, vou levar a vida toda pra aceitar que elas já cresceram. Criei minhas filhas para serem independentes. Eu me considero uma mãe equilibrada, elas não veem isso. Eu sou a “General” da casa. O que me importa não são os “blas blas blas” durante as tarefas dadas. E sim, o reconhecimento das conquistas delas. Na hora em que dou as ordens elas reclamam e depois que conquistam viram um grude. Coisas de filhos que reclamam e depois reconhecem. O único assunto que eu não discuto nessa casa é sobre CABELO.

Dizem que futebol e religião não se discutem. Só que nessa casa você pode discutir, o que não tem conversa é CABELO. Falar de cabelo, estilo de cabelo é o inicio de uma guerra. Eu tenho uma história sofrida com meus cabelos, na verdade, eu não tenho cabelo. Sempre tive problemas com meu coro cabeludo e minha mãe raspava para resolver. Eu chorava muito. Queria meu cabelo comprido, igual das minhas amigas. E não foi possível. Minha mãe não tinha muito jeito comigo, não tínhamos dinheiro para fazer tratamentos. Então, acabei me acostumando com a cabeça raspada. Às vezes, me confundiam com menino. Ainda bem que eu tenho traços finos, quando me olhavam percebiam que tinha algo esquisito. Logo se desculpavam e reconheciam que eu era uma menina. E como se fosse um carma, o tema cabelo segue polêmico na minha vida. Como tenho minha cabeça raspada não defendo nenhuma das meninas. O que é uma sorte danada! Se não, eu estaria encrencada.

Quando elas eram pequenas, por volta dos cinco anos de idade, questionavam a minha falta de cabelo, foi uma fase difícil pra mim. Eu não sabia como explicar os problemas que passei. Elas eram pequenas, eu achava que não entenderiam. E até que um dia, criei coragem e contei. Falei das dificuldades que eu passei que minha mãe resolveu daquela forma e que me acostumei. Eu acabei chorando porque as três me surpreenderam e pediram para raspar também. Queriam ser igual a mamãe. E tive que explicar que cada um tem direito de escolher o que gosta e cuidar do seu cabelo da forma que gosta. Mas, que elas eram muito novas para decidirem fazer como a mamãe, que não teve opção de escolha. Elas se aquietaram com a minha explicação. E isso durou mais cinco anos. Quando estavam pra completar dez anos elas se revoltaram. Cada uma queria fazer uma coisa diferente com o cabelo. Uma queria Black Power, a outra alisar e outra trançar. Eu quase enlouqueci com as três. Quase pedi a Deus pra voltar no tempo e raspar o cabelo delas.

Como elas ainda tinham dez anos, decidi que quando completassem quinze anos elas poderiam mudar o cabelo. E dito e feito! Quando completaram os quinze anos cada uma marcou horário no salão que queria. Elas voltaram para casa desfilando, eu nem sabia para quem eu olhava. A Le de cabelo preso, passou química para tirar o volume. A Sol de Black Power, cabelo natural. E a Li com o cabelo liso. Era o trio LI-vre LE-ve SOL-to! Estavam prontas para um comercial de xampu… rs!

Depois que cada uma fez o que queria, acreditei que estariam felizes e cada uma cuidaria das suas coisas sem se preocupar com a outra. E eu me enganei, porque a Sol começou um discurso de que todas deveriam deixar seus cabelos crescerem naturais, sem químicas e que teriam que usar com volume. E a Li defendendo que o cabelo liso parecia ser mais arrumado e socialmente mais aceito. E a Le dizia que não deixaria de usar química no cabelo porque não gostava do volume dos cabelos.

A guerra dos cabelos! A guerra das verdades!

Eu sei que cada uma delas tem suas verdades, o que as deixam confortáveis. E como mãe e dona de uma cabeça raspada, traumatizada, ficaria feliz se quando criança pudesse optar por o que elas estavam optando.

O que me restou no meio desse dilema foi deixar cada uma viver da forma que gostava. E deixar que cada uma escrevesse a sua história, tivesse as suas experiências. E que aprendessem com a vida o que era melhor para cada uma delas. Afinal, qual é a minha experiência com cabelos? Tem sempre um momento na vida que temos que dar valor ao silêncio. Mesmo sendo mãe, não tenho domínio de todas as verdades. Essa é a minha realidade!

Elas completam dezoito anos essa semana e agora elas realmente formam o trio LI-vre LE-ve SOL-ta, soltas, né? Não tenho mais como segurar ou proibir, resta eu acreditar que ensinei o melhor e elas repassaram o que aprenderam. E eu como boa mãe coruja misturada com leoa ficarei aqui a espera delas pra ouvir qualquer dilema delas, sempre!