“Confessionário”, estórias de histórias. Algumas nos fazem chorar, outras rir e até repensar na vida. Essa estória é de uma doméstica aposentada e feliz.

A vida é dura pra quem é mole! Eu vim da roça, do trabalho duro, levantava cedo. Bem antes do galo cantar. Fazia minha marmita, meu embornal. E caia na estrada. A pé. Eu e as minhas comadres. Tempo bom! Não tinha essa preguiça que o povo tem hoje, não tinha não! Tenho orgulho da minha vidinha, de enfrentar as inconstantes dos dias e sozinha. A maior parte da minha família faleceu num acidente de caminhão. Eu vivia com meu pai e a minha madrasta. Era muito difícil, ela não gostava de mim. E depois que meu pai faleceu fiquei sozinha. Era eu e Deus.

Eu tinha 19 anos, quando fui morar numa casa de família, eles precisavam de uma ajudante. E eu fui! Acordava cedo, logo às 5h da manhã, fazia o café completinho. A patroa era exigente gostava que tudo estivesse à mesa logo às 7h da manhã. Eu sempre fazia tudo direitinho, mas ela sempre gostou de rever o meu serviço. Ela reclamava do meu serviço só por vício de dizer algo pra mostrar que mandava. Eu nem ligava mais. E voltava fazer o meu serviço.

A minha labuta era das 5h da manhã às 7h da noite. Era muito serviço, mas eu sempre gostei disso. Sempre fui trabalhadeira, dedicada. Aprendi com a minha mãe, minha avós, sempre trabalharam em casa de família. Era tradição. Mas, eu dizia “quando eu tiver minha cria, quero que a minha filha seja professora”, eu já sonhava com isso!

Depois de dois anos na casa dessa família, conheci um rapaz que começou a me galantear. Ele era militar. Muito bonito e forte! E ele disse que queria cuidar de mim e fui morar com ele. Nós ficamos juntos por cinco anos. Deus nos abençoou com uma filha, minha pérola. Vivíamos felizes, era homem bom, honesto, trabalhador. Um sonho de marido!

Quando estava tudo bem recebi a notícia que meu amado tinha sofrido um acidente de carro e veio a falecer. Minha vida nunca foi mar de rosas, sempre tive que cuidar mim. E naquele momento, perdi o homem da minha vida e tinha uma filha pra criar. Passei alguns dias perdida, sem rumo, sem coragem. A minha sorte é que meus vizinhos eram bons e me ajudaram. É inconsolável perder alguém que a gente ama. Era tão forte aquele amor que ele nunca morreu em mim.

Depois dele eu nunca mais me envolvi com ninguém, porque o nosso amor era verdadeiro. Foi tão bom que eu tinha medo de arrumar outro e não ser tão bom. E também, eu tinha a minha menina, novinha. Tinha medo te colocar um homem em casa e ele abusar da minha menina. Não é fácil ser sozinha. Mesmo assim, Deus me deu força para superar os problemas todos os dias. Ver minha menina feliz era o que eu queria e me fazia feliz também.

Com o tempo, fui me fortalecendo, trabalhando, ocupando a minha vidinha com os meus trabalhinhos, cuidando das minhas galinhas, das minhas plantinhas. Preenchendo o meu dia. E a vida foi melhorando e eu consegui motivação pra seguir. Graças a Deus, só com meus quitutes eu comprei um terreninho pra deixar de herança pra minha filhinha.

A maior parte da minha vida foi dedicada a minha filha. Para dar a chance de ela ser professorinha. E não passar o que eu passei. Tivemos uma vida apertada, tudo era contado. Mas, nunca faltou comida no prato.

Quando ela completou 18 anos, ela se formou professora. Eu já estava realizada e precisava realizar mais um dos meus sonhos, ser uma mulher letrada. Eu sabia fazer continha, mas não sabia ler e escrever. Minha filha foi minha professorinha do jeito que eu sonhei.
Nada na minha vida foi fácil. Do meu jeitinho, simples e dedicada, fui realizando os meus sonhos. E espero que eu ajude minha filhinha, que hoje já não é mais pequenininha a realizar os sonhos dela também.

A vida me deu momentos difíceis e eu nunca desisti! O que vale na vida é a nossa família, os bons amigos, sentar na mesa e compartilhar uma boa comida. E isso eu fiz muito com minha filhinha, em todos os momentos. Nós éramos a grande família, não é a quantidade de pessoas que garante a alegria, é a qualidade, o bom sentimento, a empatia. Eu nunca fui uma pessoa de abraçar, de dizer “eu te amo”. Eu nunca tive isso! Eu não sei dar amor falando. Meu amor eu dou em atitudes. Eu sei servir. Dedicando aos outros meu tempo, essa é minha forma de amar.

Dá licença, que eu vou pra cozinha, preciso fazer uma comidinha pra minha filhinha que está pra chegar. Fica pra outro dia a nossa conversa. Até logo, tenho que trabalhar!
-aposentada