“Confessionário”, estórias de histórias. Algumas nos fazem chorar, outras rir e até repensar na vida. A estória de hoje é sobre uma Comissária, que era uma simples criança sonhadora.

Eu sou uma pessoa extremamente sortuda, amo minha profissão, amo a minha vida. Eu sonhei com essa profissão, a de ser comissária de voo. Quando era pequena meu pai trabalhava no aeroporto, as vezes, ele me levava para ver as aeronaves pousarem e decolarem. E eu olhava as comissárias no aeroporto e ficava fascinada. Elas sempre elegantes, sorridentes, educadas. O modelo de mulher chique. E eu achava lindo vê-las com a bagagem de mão e a bolsa a tiracolo cruzando os corredores. Meus olhos brilhavam.

Quando assistia filmes com comissárias achava incrível a naturalidade que elas recepcionavam cada passageiro. Como tudo parecia fácil! Parecia que elas nasciam especificamente para trabalhar com isso. Eu viajava, sonhava alto e longe com o que aquela função representava pra mim.

Quando completei 18 anos eu logo me inscrevi para o curso de comissária de voo. Eu havia guardado uma graninha na poupança, sem ninguém saber, para fazer o curso. Minha família não me apoiava muito, considerava gasto desnecessário de dinheiro e tempo. É que eles tinham medo. Medo do risco de voar, que eu teria que gastar muito para fazer o curso, medo de que eu iria me afastar deles. Achavam que era profissão para ricos, pensamento estranho! E existe profissão específica para de ricos? Existem pessoas que enriquecem profissionalmente por amor ao que fazem. Profissão bem sucedida é a que a gente ama fazer todos os dias. Bem disse Confúcio “Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida”. É a mais pura verdade, eu bem sei disso!

Foram quatro meses inesquecíveis! Esse foi o tempo do curso. Em todos os sentidos que se possa imaginar do que é inesquecível: mais duros e mais gratificantes! O curso era no período noturno, eu tinha que trabalhar durante o dia, eu era recepcionista numa agência de viagens. Passava o dia entre ligações, recepcionando clientes, servindo café e dando dicas de destinos, quando as agentes de viagens não estavam disponíveis. Foi uma ótima experiência. Aprendi muito sobre turismo. Meus primeiros dias na agência eu nem sabia falar o alfabeto fonético. Na primeira ligação que atendi, fui soletrar o sobrenome do passageiro e morreram de rir. O sobrenome era Haas, eu nunca me esqueci desse dia. Eu soletrei H – de hotel, A – de amor duas vezes… daí, caíram na gargalhada. Nem deu tempo de dizer S – de sopa. No final, eu ri e aprendi uma nova linguagem, aprendi o alfabeto fonético. E soletrei corretamente o sobrenome H – hotel, A – Alfa, A – Alfa, S – Sierra. Pelo menos, acertei a letra H – Hotel, não fui tão mal!

Mas, voltando à experiência dos quatro meses. Eu sempre gostei de estudar, então, eu não reclamava das gigantes apostilas que tinha que ler. Os professores eram muitos legais, dava muito mais vontade de aprender. Eu ficava vidrada neles em cada aula. E na correria da agência e curso, fui ficando cada dia mais encantada, muito cansada também. Acordava às 5h da manhã e só dormia às 23h. Quando não tinha nada para fazer. Alguns dias passei a noite acordada estudando. Ufa! Quanta loucura! Bom, a loucura dos estudos. Porque nas últimas semanas do curso, tivemos o curso de sobrevivência na selva e no mar. Na verdade, não fomos pra selva e nem alto mar. Fomos para uma mata fechada testar nossa capacidade de lidar com dificuldades, caso ocorresse um acidente aéreo. Deus me livre! Mas, nessa função é preciso estar preparado. E para isso tem que pensar nos riscos e saber o que fazer. Foram 3 dias bem desgastantes. Torturantes para ser sincera. Os professores criaram um clima opressivo, como se fosse de verdade. Deram-nos uma galinha, uma garrafa de água e um abacaxi. No meu grupo tinham oito pessoas, contando comigo. E tínhamos lonas e cordas para montar acampamento. Foi um dia interessante, a minha sorte que meu grupo era bem animado e amigável. Dividimos as tarefas e cada um saiu para cumprir. Pegaram galhos de árvores para fogueira, outros foram procurar onde havia uma fonte de água e eu fiquei para montar o alojamento. Foi um dia produtivo. E entendemos bem o que é viver um dependendo do outro, como é importante o companheirismo nos momentos difíceis.

Superado todos os desafios, de passar nas provas e nos testes físicos, consegui meu diploma! Aquela conquista parecia que tinha terminado uma faculdade. Como eu só falava de Direito Aeronáutico, Primeiros Socorros, Meteorologia, meus pais achavam que eu tinha me tornado uma especialista. Tudo que eu falava era muito fora da realidade deles, eu vivendo intensamente os quatro meses com esses assuntos, sou sincera em dizer, eu estava insuportável. Eu só falava disso! Dá minha paixão pela aviação!

Depois de concluir o curso, preparei meu CV, mandei para várias companhias aéreas. Fiquei esperando uma resposta por meses, fiquei ansiosa por uma resposta e nada! Em nenhum momento perdi a esperança de que seria possível. Em casa, já diziam “Desisti disso! Fica na agência que é melhor, para de ficar sonhando alto com coisa impossível”. Eu gostava de trabalhar na agência, mas queria mais, queria sonhar alto, queria trabalhar no céu. E sonhar em ser comissária já não era mais coisa impossível, eu já era uma comissária aprovada pela ANAC (Agência Nacional da Aviação Civil). Ignorei os comentários chatos. E pedi todos os dias para Deus me colocar no caminho das nuvens. Pensar em voar era mágico! E poderia ser real, eu estava no meio do caminho!

Bom… após um ano me chamaram para entrevista. Que maravilha! Demorei horas me arrumando quase cheguei atrasada. Foram cinco etapas para chegar a ser comissária. Vários testes e documentos que eu tive que levar. Ufa! Recebi o e-mail dizendo “Bem vinda! Chegou a sua hora de voar!”. Quanta alegria! Eu estava transbordando de felicidade! Um dos momentos mais esperados, mais gratificantes, inesquecível, receber a resposta de aprovada. E os dias foram correndo, com mais cursos e testes. Graças a Deus, chegou o dia de voar!

E quando fui para o primeiro voo, vestida com meu lindo uniforme, minha bagagem de mão, minha bolsa tiracolo, eu estava realizada! Fui obrigada a mudar minha frase típica das viagens, “Fé em Deus e pé na estrada” para “Fé em Deus e vento de proa”. E feliz sigo minha jornada, todos os dias. A maior felicidade da minha vida, acordar e saber que eu vivo um sonho todos os dias. Eu sou comissária!